terça-feira, 3 de setembro de 2019

Como as roupas de Maria Antonieta decidiram seu destino

Maria Antonieta da Áustria, 1767
Maria Antonieta da Áustria, 1767

"Ser a mulher mais a la mode de todas parecia [a Maria Antonieta] a coisa mais desejável que se poderia imaginar; e essa fraqueza, indigna de uma grande soberana, foi a única causa de todos os defeitos exagerados que o povo tão cruelmente lhe atribuiu." Condessa de Boigne

  Quando pensamos em Maria Antonieta logo lembramos de seus chamativos penteados, não? Chamar atenção pelo seu visual e ser um ícone de moda enquanto esteve na França são alguns aspectos que mais se comentam sobre ela. Mas também é possível dizer que as decisões de Antonieta relacionadas à moda determinaram o seu destino. A biografia escrita por Weber trata basicamente da relação da Maria Antonieta com a moda e suas consequências, e nesse artigo destaco alguns pontos dessa trajetória.

Despida e amarrada 

  Sendo enviada para França em 1770 aos seus 13 anos para ser a noiva do delfim e futura rainha, uma quantidade enorme de protocolos a cercava, mesmo na hora de se vestir. Saía de seu controle que roupas vestir, quem as colocaria em seu corpo e até mesmo as ocasiões em que essas peças seriam usadas. 

  De origem Austríaca, antes mesmo de ser apresentada ao delfim com quem iria se casar, ela teve que deixar todos os seus pertences antes mesmo de passar a fronteira do país, pois para se tornar a delfina precisava não só se portar como francesa, mas também era imprescindível que se vestisse como uma.

"De fato, para os residentes de Versailles, roupas e outros emblemas aparentemente superficiais continuavam a ser medidas concretas de sucesso...ou fracasso." Caroline Weber

Maria Antonieta aos 16 anos, 1771
Maria Antonieta aos 16 anos, 1771

  Essa adaptação não foi fácil e muitas vezes Antonieta se rebelou contra as regras e protocolos da corte. Suas primeiras revoltas em relação ao vestuário envolveram deixar de lado o uso do espartilho, peça com a qual não estava acostumada. Uma outra afirmação de que ela estava disposta a ser diferente consistiu em usar trajes de inspiração masculina para cavalgar, o que foi suficiente pra causar um grande escândalo na época. Muito se comentava sobre as inclinações amazonas da delfina,  e como isso podia fazer mal e prejudicar uma futura gestação, assunto de suma importância para o país. Essas escolhas estéticas deixaram a delfina que já era hostilizada por ser estrangeira ainda mais impopular. 

Ícone de moda 

 Durante o século XVIII a profissão de costureiro era reservada a homens, o que as mulheres costumavam fazer era cuidar de acessórios, enfeites e afins. Rose Bertin foi uma das primeiras mulheres a criar vestidos e ter uma loja própria, e fez muito sucesso em Paris vestindo mulheres ricas e influentes, o que a fez ser apresentada à Maria Antonieta em 1772.

Ilustração de moda com a  rainha como modelo, 1779
Ilustração de moda com a  rainha como modelo, 1779

  Não se sabe ao certo quando exatamente Antonieta gastava com Bertin porque seus livros de contas não sobreviveram ao tempo, mas é certo de que eram quantias enormes, visto que então rainha recebia Bertin em seu palácio até duas vezes por semana para saber das novidades em relação à moda.

  Essa parceira - que lhe rendeu o apelido de Ministra da Moda na época -  alavancou ainda mais os negócios de Rose Bertin, que chegou a usar manequins que se assemelhavam à Maria Antonieta para exibir seus modelos.

Entre poufs e pães

  Um outro grande parceiro de Antonieta foi seu cabeleireiro favorito, o Monsieur Léonard. Ele é considerado o inventor do pouf, penteado que a rainha popularizou e imortalizou como sua marca. Esses penteados altíssimos e empoados muitas vezes tinham um tema expressado pelos acessórios, e mesmo sendo custosos em alguns períodos Antonieta montava um pouf diferente a cada dia.

Pouf que Maria Antonieta usou em homenagem à independência americana,  que foi conquistada com a ajuda de navios franceses em 1779
Pouf que Maria Antonieta usou em homenagem à independência americana,
que foi conquistada com a ajuda de navios franceses em 1779

"Onde antes inspiravam admiração e reverência, as 'plumas e babados' de Maria Antonieta suscitavam agora questões sobre sua disposição ou capacidade de considerar 'coisas mais sérias'."
Weber

  Em meio a isso tudo o país começa a entrar em crise. E, como costuma ocorrer nesses casos, é a população mais pobre que sente primeiro a escassez enquanto a nobreza ainda tenta manter seu estilo de vida ostentoso. Esses gastos e mudanças constantes de vestuário começaram a incomodar o povo, que estava cansado de ver a nobreza ser sustentada às custas de altíssimos impostos cobrados da população. Em uma das revoltas dos franceses onde protestavam pelo aumento do preço do pão chegou-se  a culpar a rainha pelo uso exagerado de farinha em seus penteados. É nesse episódio que surge o boato - já desmentido - de que Maria Antonieta disse que se o povo não tem pão, que comessem brioches.

  A pressão para que ela controlasse seus gastos aumentava a cada dia e fez até mesmo com que seu marido - o rei Luís XVI - pedisse à Antonieta que ela diminuísse seus gastos com roupas e penteados, e sua resposta foi que se ela parasse de gastar com roupas, 200 estabelecimentos teriam que fechar as portas no dia seguinte.

A rainha camponesa 

  Porém, ainda assim, em 1778 Maria Antonieta ganha de presente o Petit Trianon como presente por ter dado a luz a seu primeiro filho e resolve se mudar para lá. Nesse pequeno palácio com um ar mais rústico passa a adotar um estilo de vida mais simples, o que novamente impactou seu vestuário.

retratos de Maria Antonieta por Vegée

  Nessa fase de sua vida, ela aboliu elementos que a identificavam como uma aristocrata, como os espartilhos, armações, tecidos pesados. Essa atitude revoltou a muitos por dois motivos: era uma absurdo que a Rainha da França privasse a nobreza de vê-la e patriotas a acusavam de prejudicar o mercado nacional porque o tecido utilizado em seus novos vestidos - a musselina - era importado, ao contrário da seda que era produzida no país.

  Como se não bastasse, em 1783 Elizabeth Louise Vigée a retratou no vestido que passaria a ser conhecido como Chemise a la Reine (camisola à Rainha, em tradução livre), o que escandalizou a todos por mostrar uma pessoa tão importante em trajes que lembravam camisolas e roupas de baixo. A repercussão foi tão negativa que logo depois Vigée fez uma outra versão do mesmo retrato, dessa vez com um vestido que seria considerado mais adequado para seu status social. 

Confinada 

Maria Antonieta na prisão Temple, 1793
Maria Antonieta na prisão Temple, 1793

  A situação na França se tornou ainda mais complicada o que resultou na Tomada de Bastilha e consequentemente a Revolução Francesa, em 1789. Nesse momento a família real é presa e os bens presentes em Versailles depredados ou saqueados.

  Mesmo em um momento puramente político a moda ainda teve seu papel: É simbólico o fato de que quando a população revoltada tomou o palácio de Versailles, fizeram questão de destruir todo o guarda roupa de Maria Antonieta uma clara mensagem de ódio a algo aparentemente inofensivo como roupas.

  Em seu confinamento, sem cabeleireiros e costureiros o visual da rainha passou a ser extremamente básico, e mesmo assim ela tentava manter uma aparência digna, com roupas limpas na medida do possível, o cabelo com o penteado simples, e vestes de luto quando foram necessárias. Mesmo no período mais difícil de sua vida Maria Antonieta sabia do poder que seu visual tinha. Esse esforço não passou despercebido aos olhares de quem a vigiava, e guardas eram instruídos a serem cada vez mais rígidos, seja não deixando com que ela tivesse privacidade ao se vestir, seja revistando itens de vestuário e costura que entravam na cela e podiam conter mensagens conspiradoras.

  Tendo que lidar com a morte de entes queridos, definhando de doença e então condenada à morte, Maria Antonieta sobe à guilhotina para ser executada em um vestido completamente branco, simples e austero, sua última afirmação de moda.

"Em seu último dia na França, como no primeiro, todos os olhos estariam fixos nela." Weber

Considerações finais 

  Sendo impossível abordar a vida de Maria Antonieta inteira em apenas um artigo e muito menos todo contexto histórico que resultou na revolução francesa essa sequer era minha intenção. Trago aqui um recorte, uma abordagem focada no micro ambiente que eram as roupas da Maria Antonieta, os aspectos que influenciaram o que ela vestia, como a sua forma de se vestir influenciou como ela era vista, e consequentemente, como toda a sua relação com moda a tornou extremamente impopular e definiu seu destino.

  É impossível isolar a Moda de uma época de seu contexto histórico, e estudar a moda do século XVIII revela muito sobre gênero, classe social, economia, política...a moda perpassa por todos esses aspectos, e como diz uma frase creditada a  Louis XIV:

"A moda é o espelho da história."

  Encerro aqui esse artigo e recomendo a todos que se interessam pelo assunto a leitura do livro da Weber. 

Bibliografia:

WEBER, Caroline. Maria Antonieta: como a rainha se vestiu para a Revolução. Rio de Janeiro: Zahar, 2008

4 comentários:

  1. Muito legal! O interessante é que a fúria foi tanta que quase não sobrou nada do guarda-roupa dela. E a personalidade dela e o momento político excepcional são tão marcantes que ofuscada e ofuscam as demais rainhas que lhe eram contemporâneas.

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    1. Pois é, ela foi tão marcante que muita gente sabe dela mas nem conhece o Luís XVI...

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  2. Existe alguma tela que a retrate em seu último dia? Qual a origem do vestido branco?

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    1. Do que foi produzido na mesma época, tem esse rascunho: https://media.gettyimages.com/photos/former-french-queen-marie-antoinette-on-the-way-to-the-guillotine-ink-picture-id107412404?s=2048x2048

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