terça-feira, 24 de março de 2020

Por onde começar minha pesquisa sobre história da moda?

    


    Frequentemente me pedem indicações de livros sobre história da moda ou para recriação histórica, e depois de tanto passar essas informações por mensagens, resolvi reunir aqui os meus preferidos para quem quer fazer trajes históricos, estudar sobre história da moda e coisas afins. São obras que eu vivo consultando, seja para as pesquisas que faço aqui pros artigos do blog ou para confeccionar meus trajes. Deixo também o link* de onde encontrar esses livros para comprar ou baixar. Trago primeiramente livros mais abrangentes para quem está está procurando títulos para começar a se aventurar e ao final livros mais específicos, para os que gostam de esmiuçar determinados temas. Essa lista estará em constante atualização, viu?


A Roupa e a Moda - James Laver 

   É uma boa pedida pra quem tá começando pois, como o próprio subtítulo diz, é uma história concisa. Nele você vai encontrar descrições das principais silhuetas ao longo da história, de forma prática e ilustrada. A escrita também é agradável e não é excessivamente vaga, apesar de ser mais generalista. Pode ser encontrado aqui

Moda: uma filosofia - Lars Svendsen 


    Esse é para aqueles se interessam mais pelo campo da história social da moda. Lars é um filósofo que apresenta um panorama da história da moda relacionando-a com linguagem, corpo, arte, consumo e outros. Uma obra interessantíssimas para repensar a moda para além de simplesmente peças de roupas. Pra quem quiser conhecer mais, trouxe alguns comentários nesse post aqui no blog.Também pode ser comprado em edições físicas e cópias virtuais

História do Vestuário no Ocidente - François Boucher 

    Com cerca de 500 páginas coloridas num formato A4, é definitivamente um dos livros mais completos sobre o assunto, e trata desde o que ainda chamamos de indumentária, lá na antiguidade, até a moda das passarelas da década de 1980. Outro ponto interessante é a apresentação dos estilos em variadas regiões de forma individual, ao invés de generalizar toda a Europa, por exemplo. Por ser da finada Cosac Naify é uma edição esgotada, mas encontram-se cópias usadas na Estante Virtual e Amazon

Patterns of fashion - Janet Arnold 



    Para você que busca acurácia história essa série de livros é um prato cheio! Nele além de moldes - traçados a partir de peças de museus - desenhados em escala, são apresentados descrições dos materiais utilizados nos modelos e desenhos mostrando detalhes da parte interna e acabamentos utilizados. As edições que recomendo são a número 1 (1660-1860)2 (18860-1940) e 3 (1560-1620)

The cut of woman's clothes - Norah Waugh 

   Uma opção mais generalista para reconstrução histórica, nele são apresentados breves descrições da moda do período, materiais utilizados e molde das roupas, tiradas a partir de peças de museus, abrangendo as silhuetas entre 1600 e 1900s. É um dos livros que sempre dou uma consultada em minhas pesquisas. Pode ser encontrado aqui.Também existe a versão masculina, a The cut of men's clothes

História do Vestuário - Carl Kohler

    Um dos únicos dessa lista que aborda a antiguidade, também trás diagramas de algumas peças, além de extensas descrições sobre os estilos usados por homens e mulheres em diversos lugares. Não é o que mais utilizo, mas definitivamente recomendaria pare se ter à mão. Para quem quiser a cópia física em português, pode encontrá-la aqui, mas a versão em pdf também está disponível de forma gratuita aqui, em inglês.

The History of Underclothes
- C. Willett Cunnington


    É sabido que um traje histórico é construído de dentro pra fora, e estudar as peças de baixo que formam a estrutura e silhuetas das roupas é essencial pra isso. Para quem quer se aprofundar mais no assunto, The History of Underclothes é uma ótima opção. O que me chama a atenção é que além de traçar uma linha do tempo do que era utilizado, é descrito como essas peças realçavam determinadas partes do corpo, visto que o interesse mudava conforme a época. Em cópias físicas e digitais.

Costume in detail - Nancy Bradfield
    Um dos livros mais novos em minha coleção, mas já considero um dos favoritos e super indico! Ele é bem direto: Ilustrações e descrições breves das roupas femininas entre 1760 e 1930. O que eu adoro nele são as medidas de alguns detalhes das peças, os desenhos das peças internas...um prato cheio para quem quer reconstruir roupas de outras épocas da forma mais historicamente correta possível. 

Tecidos: história, tramas, tipos e usos - Dinah Maria Pezzolo

    Para quem quer costurar, um entendimento dos tecidos é essencial, e essa é uma ótima opção para saber mais sobre o assunto. Gosto de como ele aborda tanto a história de cada fibra e como ela foi utilizada ao longo da história e trás também as principais características de cada um deles e como utilizá-los. Pode ser comprado na Amazon, mas caso você seja ex-aluno Senac o site da editora oferece um desconto. 


18th Century Dressmaking - Lauren Stowell e Abby Cox

    Entrando no campo dos livros mais específicos, esse trata só sobre técnicas de costura do século XVIII. Traz diagramas e processo de construção de vários trajes e acessórios, não só no estilo da alta sociedade francesa mas abordando outras classes sociais e nacionalidades. Lauren e Abby são figurinhas conhecidas na comunidade de recriação histórica e sabem do que estão falando. Em cópias digitais e físicas

How to be a Victorian - Ruth Goodman



    Esse aqui é um pouco mais teórico, o foco dele é mostrar como era o dia a dia das pessoas durante a era vitoriana, escrito pela  Ruth Goodman, que é uma especialista em recriação histórica. Entre os assuntos abordados estão desde passatempos, atividades cotidianas até questões bem específica sobre sexo e festividades, por exemplo. Em relação à moda, encontram-se descrições sobre o processo de se vestir e o tipo de roupa que era utilizado em cada ocasião. Uma boa pedida para os que gostam da Era Vitoriana e querem conhecer mais a fundo. É possível encontrá-lo em e-book e em versão física

Para vestir a cena contemporânea - Século XVIII - Fausto Viana e Isabel C. Italiano


    Ainda sobre século XVIII, o livro de Fausto e Isabel é uma ótima opção em língua portuguesa. Trás tanto a pesquisa e descrições sobre os diversos estilos da época como também questões mais técnicas de costura, abordando trajes femininos e masculinos. Com imagens detalhadas de como costurar cada uma das peças e também diagramas de moldes, a melhor parte é: está disponível gratuitamente em PDF. Para acessar só clicar aqui

The Medieval Tailor's Assistant - Sarah Thursfield 

    Para os que querem se aventurar pela idade média, esse livro conta com mais de duzentas páginas sobre técnicas de costura e acabamento e moldes de diversas roupas e acessórios utilizados por homens e mulheres durante a era medieval,além de extensas descrições sobre a moda da época .Compensa comprar a versão digital aqui

The Tudor Tailor - Ninya Mikhaila e Jane Malcolm-Davies



    Na mesma linha, de livros escritos por especialistas em reconstrução histórica temos o The Tudor Taylor, que trata especificamente sobre as técnicas de costura do período Tudor, que aconteceu entre 1485 e 1603 na Inglaterra. O livro mostra diagrama e técnicas de costura de peças de baixo até mesmo acessórios, abordando várias classes sociais e os dois gêneros. Disponível aqui

    Bom, esses são os principais livros que eu indico, dentre as inúmeras opções para quem pesquisa esses assuntos. Mas ainda assim caso queria tirar alguma dúvida em sua pesquisa e acha que eu posso te ajudar com indicação de alguma bibliografia não hesite em me contatar no julianalopesmf@gmail.com

    Até a próxima! 

Leitura recomendada: 

Como começar na recriação histórica

*parte dos links são afiliados, o que significa que eu ganho uma pequena comissão na compra. Você não paga nada a mais por isso e me ajuda a continuar criando conteúdo de qualidade. Garanto que só indiquei livros que realmente uso e sempre falei sobre.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Ensaio fotográfico: Boudoir histórico

 

     Por baixo desses trajes que vocês costumam ver por aqui sempre tem um conjunto das ditas 'imencionáveis', afinal um traje histórico é construído de dentro pra fora. Em conversas com outras amigas da costura histórica vez ou outra soltamos que é uma pena que essas peças nunca sejam vistas, até que ano passado resolvemos mudar isso e fizemos um ensaio boudoir, mas com lingerie histórica. 

     Para isso eu separei dois conjuntos, um vitoriano tardio (1890s) e um com uma proposta mais pinup, seguindo o estilo de 1950s. As fotos foram tiradas no Estúdio Elemento D, por Gabriela Vieira, Raquel Souza e Cissa Rufini. 

Vitoriano Tardio - 1890s

      Para esse conjunto eu me inspirei fortemente no horror vitoriano, eu queria algo que causasse uma impressão forte. Era raríssimo encontrar peças de baixo que fossem assim escuras, elas costumavam ser brancas não só por higiene mas para representar pureza, demonstrar status... Uma lingerie em cores fortes certamente seria uma escolha ousada no século XIX e definitivamente uma peça feita para ser vista, assim como um corset em tecido nobre e enfeitado com rendas. O conjunto de camisole e calçolas foram feitos por mim e o corset é da Josette Blanchard. 

     Na fotografia, a ideia foi referenciar post cards da época (se engana quem pensa que a era vitoriana era completamente puritana!), que foram as precursoras da pinup.

Por Gabriela Vieira:







Retrô 1950s

    Para o conjunto retrô, a ideia foi seguir pela estética pinup, com uma proposta mais romântica mas com um quê de vaidade. Eu particularmente gostei de imaginar que era uma mulher esperando o marido voltar da guerra mas sabendo se curtir enquanto isso, haha. Rendas, pérolas e excessos de tecido trouxeram a opulência que eu buscava em um conjunto cujo robe foi confeccionado por mim, ligas são da Satinè, corset da Josette Blanchard e conjunto de lingerie de uma loja de departamento.

Por Raquel Souza 








Por Cissa Rufini 






     Ter feito esse ensaio é algo que eu queria faz tempo e fiquei bem satisfeita com o resultado, espero que vocês também tenham gostado! Recomendo dar uma olhada nas páginas das fotógrafas pra ver mais sobre o trabalho delas, e pra quem se interessou pelas marcas que citei, algumas já escrevi sobre aqui no blog: Review da Josette Blanchard  e Post sobre a Satinè

Até a próxima!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

One hour dress 1920s



  Para iniciar os anos 20 com pé direito, resolvi reproduzir o One Hour Dress, um modelo popularizado durante a década de 1920s com a promessa de poder ser confeccionado em uma hora ou menos. 

Inspirações

molde vestido anos 20

   O que eu procurava incorporar no meu design eram detalhes em rendas e passamanarias, para dar um aspecto mais elaborado ao modelo. As imagens acima foram minhas principais inspirações para desenhar meu modelo. 

   Eu também usei manuais da época para estudar, porque seria muito mais fácil conseguir costurar as coisas no tempo proposto se eu já soubesse o que fazer. As referências que usei estão na bibliografia ao final do post. 

Processo de confecção

Gravei um mini-vlog de como foi fazer o vestido, você pode acompanhar aqui no canal:


Resultado


vestido anos 20

vestido anos 20

vestido anos 20

   Gostei bastante de como ficou! Na verdade o que me deixou mais impressionada é que realmente é possível fazer um vestido em tão pouco tempo... Claro que não é meu vestido mais bem costurado e não ficou 100% como eu gostaria, numa próxima oportunidade eu faria com mais calma e mudaria alguns detalhes. 

Referências

The One Hour Dress, Mary Brooks Picken
The One Hour Dress, Merritts Closet

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Como uma mulher do século XVIII se vestia: parte II

Parte II: Os estilos usados no século XVIII


   Dando continuidade à série de posts sobre como uma mulher se vestia no XVIII, chegou a vez de falar sobre vestidos. Nessa época temos vários modelos, que não só foram mudando de acordo com a época mas também coexistiam, fazendo com que fosse possível observar vários estilos diferentes numa mesma década. Vamos conhecer alguns deles:

Mantua 


mantua século xviii
   Inicialmente chamado de robe de chambre no início do século, quando os vestidos eram mais soltos no corpo. Esse excesso de tecido passou a ser pregueado para dar formato ao corpete e formando uma cauda na parte de trás, dando origem ao mantua. Por ser um modelo usado na corte, o pannier estava presente. 


Volante (sacque)

vestido volante
   Foram mais populares entre 1700-1715, o vestido possuía duas variações de nome. Era cortado em duas peças - frente e costas - e as mangas possuíam pregas. Podia ser usado todo solto ou com uma faixa na cintura. O pannier continuou sendo utilizado para armar vestido.

Vestido de corte (grand habit)


vestido de corte século xviii
   É um dos modelos que mais vemos em retratos de nobres franceses. Suas principais características eram o corpete rígido pelo uso de inúmeras barbatanas, com mangas feitas a partir de babados de renda. Era imprescindível os grand panniers e uma cauda atrás do vestido. A peça era de uso obrigatório pela nobreza na corte.

Vestido à polonesa (robe a la polonaise)


vestido à polonesa século xviii
   Modelo que surge na segunda metade do século. Tinha o corpo mais solto e não possuía costura na cintura. Suas características principais consistiam em ser abotoado na frente, possuir uma abertura que mostra a saia de baixo e a parte de trás da saia repuxada formando três gomos drapeados, com mangas lisas e justas, seguindo a curva do cotovelo.

Vestido à inglesa (robe a la anglaise)


vestido à inglesa século xviii
    Aparece em 1770s com a anglomania que estava em voga na Europa. Era o vestido mais usado no cotidiano, por seu aspecto mais casual. O corpete do vestido - que agora era separado da saia - era cortado bem justo ao corpo. O volume da saia é distribuído por pequenas pregas e se concentram na parte de trás, e os panniers dão lugar a bumpads, que são pequenas almofadas usadas sob a saia para armá-la.

Vestido à francesa (robe a la française)


vestido à francesa século xviii
    O vestido à francesa é uma evolução do sacque, que perde seu volume. A parte da frente era aberta e alinhada à cintura, utilizado junto de um peitilho. Atrás, as sobreposições de pregas formam uma cauda. O vestido à francesa costumava ser ricamente decorado com pregas, babados, rendas, flores falsas e ornamentos variados.

Traje de Montaria


traje de montaria século xviii
   Era inspirado em peças do guarda roupa masculino e trazia versões de coletes e casacas, sendo combinados com chapéus do tipo tricórnio. Durante a segunda metade do século XVIII torna-se um item essencial no guarda-roupas feminino. O conjunto consistia de jaqueta, saia e muitas vezes colete. A parte de cima deixava a chemise ou uma uma camisa de montaria à mostra.

Chemise a la reine


chemise a la reine
   Popularizado na frança por Maria Antonieta, o vestido causou polêmica por se assemelhar a uma roupa de baixo. Era uma peça leve feita a partir de tecidos finos como a musselina e extremamente franzidos, as mulheres que vestiam chemise a la reine muitas vezes dispensavam o uso de stays ou outras armações por baixo

Casaquins

casaquin século xviii
   Inicialmente chamado de negligée, são vestidos à francesa ou polonesa curtos, na altura dos quadris, que se tornam populares na década 1770. O pierrot é a jaqueta mais justa no troco. O conjunto pode tanto ser feito inteiramente em um tecido só como ter as duas peças em cores diferentes.

Camponesa


jumps século xviii

   Altamente idealizado em pinturas bucólicas e utilizado até mesmo por Maria Antonieta no petit trianon, esse modelo costumava mostrar mulheres usando saias curtas, acompanhadas de coletes (jumps) que mostravam volumosas chemises. 


   Esse foi um guia visual para apresentar brevemente os estilos de vestidos mais populares no século XVIII, é possível para muito sobre cada um desses temas, mas fica pra um próximo post. Que outra época você gostaria que eu abordasse nessa série do 'Como uma mulher do século... se vestia'?

Referências:

História do vestuário no ocidente, François Boucher
The cut of women’s clothes, Norah Waugh
Para vestir a cena contemporânea, Fausto Viana e Isabel Italiano
Walking amazons, Cally Blackman
A modista do desterro: “Robe a la o quê?” - A Mantua inglesa
A Modista do desterro: Robe de cour - o uniforme da corte em versailles do século 18

sábado, 26 de outubro de 2019

Fazendo jumps: o colete feminino do século XVIII

   Sabe quando você está afim de projeto fácil e rápido pra ter um traje setecentista novo? Eu estava afim de algo assim e resolvi fazer um jumps pra compor com outras peças que eu já tinha aqui no meu acervo. Vou compartilhar aqui o processo com vocês:

juliana lopes - século XVIII


O que são jumps

   Os jumps são uma espécie de colete feminino usados no século XVIII. Proporcionavam um leve suporte ao tronco de forma mais confortável que os stays e também aqueciam a mulher. Apesar de serem peças comumente usadas por baixo de outras roupas também era possível encontrar mulheres usando jumps por cima da chemise sem outra peça por cima, em ambientes mais casuais. Para as  que precisavam de mobilidade para trabalhar e fazer tarefas do dia a dia usar jumps eram uma ótima opção.

  O nível de decoração e materiais utilizados variava bastante, encontramos peças bordadas e em seda e também outras sem nenhum tipo de enfeite. Na segunda metade do século XVIII o algodão estampado torna-se popular. Tendo menos barbatanas que os stays, era importante que os tecidos fossem mais rígidos e encontramos vários exemplos que são acolchoadas e com costuras decorativas.

Modelo:

coletes do século xviii

   Para o meu, eu buscava principalmente algo que fosse florido e tivesse fitas na frente por motivos de...laços, eu queria vários laços. Acabei encontrando algumas referências em museus que tinham as características que eu buscava e a partir disso desenhei meu modelo. 

Molde e corte:

molde de jumps - século XVIII

   O  molde não poderia ser mais simples, já que os jumps não tinham muitos recortes. O que marca a modelagem desse tipo de peça no século XVIII é a costura do ombro deslocada para a parte das costas e as abas para acomodar o volume dos quadris. A frente é feita em um painel inteiriço e as costas divididas em 4 partes. 

Costura e acabamentos: 

fazendo jumps - século XVIII

   A intenção inicial era colocar manta acrílica entre as camadas externas e de forro mas achei que acabou ficando volumoso demais, então desisti da ideia. Pra manter a peça estruturada optei por colocar barbatanas no forro. Talvez não a opção mais historicamente correta, mas era funcional. 

fazendo jumps - século XVIII

    Para a parte externa escolhi um brim estampado num padrão de floral médio, que remete às estampas da época. O forro dificilmente seria feito em um tecido com brilho mas escolhi assim para aproveitar um corte que eu já tinha aqui em casa. Pelo que vi em exemplos de museus fitas e decorações em tons contrastantes com o tecido era um detalhe que agregava um certo charme. 

fazendo jumps - século XVIII


   Ele foi inteiramente costurado à máquina, o que novamente é uma escolha anacrônica mas ia de encontro com o que eu queria, um projeto rápido de fim de semana. Costurar o viés em partes tão curvas à máquina pode ser complicado, mas um pouco de paciência resolveu.

Resultado

Juliana Lopes - traje do século XVIII

   Eu gostei de como ficou! Talvez numa segunda tentativa faria a peça com materiais mais historicamente corretos, mas do jeito que está acho que ficou bom para ensaios ou eventos mais casuais. O bacana desse tipo de peça é poder recombinar com outras peças e assim consigo construir um guarda-roupa histórico versátil, que me permita ter vários visuais diferentes. 

    Com o projeto do Traje Brasilis vocês vão ver mais do século XVIII por aqui, fiquem atentos! Tenho gostado bastante de explorar esse período. 

    Sintam-se a vontade pra sugerir outros temas para posts futuro e nos vemos na próxima! 

Principais referências: 

Angela Clayton - Making 18th century jumps 

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Como as roupas de Maria Antonieta decidiram seu destino

Maria Antonieta da Áustria, 1767
Maria Antonieta da Áustria, 1767

"Ser a mulher mais a la mode de todas parecia [a Maria Antonieta] a coisa mais desejável que se poderia imaginar; e essa fraqueza, indigna de uma grande soberana, foi a única causa de todos os defeitos exagerados que o povo tão cruelmente lhe atribuiu." Condessa de Boigne

  Quando pensamos em Maria Antonieta logo lembramos de seus chamativos penteados, não? Chamar atenção pelo seu visual e ser um ícone de moda enquanto esteve na França são alguns aspectos que mais se comentam sobre ela. Mas também é possível dizer que as decisões de Antonieta relacionadas à moda determinaram o seu destino. A biografia escrita por Weber trata basicamente da relação da Maria Antonieta com a moda e suas consequências, e nesse artigo destaco alguns pontos dessa trajetória.

Despida e amarrada 

  Sendo enviada para França em 1770 aos seus 13 anos para ser a noiva do delfim e futura rainha, uma quantidade enorme de protocolos a cercava, mesmo na hora de se vestir. Saía de seu controle que roupas vestir, quem as colocaria em seu corpo e até mesmo as ocasiões em que essas peças seriam usadas. 

  De origem Austríaca, antes mesmo de ser apresentada ao delfim com quem iria se casar, ela teve que deixar todos os seus pertences antes mesmo de passar a fronteira do país, pois para se tornar a delfina precisava não só se portar como francesa, mas também era imprescindível que se vestisse como uma.

"De fato, para os residentes de Versailles, roupas e outros emblemas aparentemente superficiais continuavam a ser medidas concretas de sucesso...ou fracasso." Caroline Weber

Maria Antonieta aos 16 anos, 1771
Maria Antonieta aos 16 anos, 1771

  Essa adaptação não foi fácil e muitas vezes Antonieta se rebelou contra as regras e protocolos da corte. Suas primeiras revoltas em relação ao vestuário envolveram deixar de lado o uso do espartilho, peça com a qual não estava acostumada. Uma outra afirmação de que ela estava disposta a ser diferente consistiu em usar trajes de inspiração masculina para cavalgar, o que foi suficiente pra causar um grande escândalo na época. Muito se comentava sobre as inclinações amazonas da delfina,  e como isso podia fazer mal e prejudicar uma futura gestação, assunto de suma importância para o país. Essas escolhas estéticas deixaram a delfina que já era hostilizada por ser estrangeira ainda mais impopular. 

Ícone de moda 

 Durante o século XVIII a profissão de costureiro era reservada a homens, o que as mulheres costumavam fazer era cuidar de acessórios, enfeites e afins. Rose Bertin foi uma das primeiras mulheres a criar vestidos e ter uma loja própria, e fez muito sucesso em Paris vestindo mulheres ricas e influentes, o que a fez ser apresentada à Maria Antonieta em 1772.

Ilustração de moda com a  rainha como modelo, 1779
Ilustração de moda com a  rainha como modelo, 1779

  Não se sabe ao certo quando exatamente Antonieta gastava com Bertin porque seus livros de contas não sobreviveram ao tempo, mas é certo de que eram quantias enormes, visto que então rainha recebia Bertin em seu palácio até duas vezes por semana para saber das novidades em relação à moda.

  Essa parceira - que lhe rendeu o apelido de Ministra da Moda na época -  alavancou ainda mais os negócios de Rose Bertin, que chegou a usar manequins que se assemelhavam à Maria Antonieta para exibir seus modelos.

Entre poufs e pães

  Um outro grande parceiro de Antonieta foi seu cabeleireiro favorito, o Monsieur Léonard. Ele é considerado o inventor do pouf, penteado que a rainha popularizou e imortalizou como sua marca. Esses penteados altíssimos e empoados muitas vezes tinham um tema expressado pelos acessórios, e mesmo sendo custosos em alguns períodos Antonieta montava um pouf diferente a cada dia.

Pouf que Maria Antonieta usou em homenagem à independência americana,  que foi conquistada com a ajuda de navios franceses em 1779
Pouf que Maria Antonieta usou em homenagem à independência americana,
que foi conquistada com a ajuda de navios franceses em 1779

"Onde antes inspiravam admiração e reverência, as 'plumas e babados' de Maria Antonieta suscitavam agora questões sobre sua disposição ou capacidade de considerar 'coisas mais sérias'."
Weber

  Em meio a isso tudo o país começa a entrar em crise. E, como costuma ocorrer nesses casos, é a população mais pobre que sente primeiro a escassez enquanto a nobreza ainda tenta manter seu estilo de vida ostentoso. Esses gastos e mudanças constantes de vestuário começaram a incomodar o povo, que estava cansado de ver a nobreza ser sustentada às custas de altíssimos impostos cobrados da população. Em uma das revoltas dos franceses onde protestavam pelo aumento do preço do pão chegou-se  a culpar a rainha pelo uso exagerado de farinha em seus penteados. É nesse episódio que surge o boato - já desmentido - de que Maria Antonieta disse que se o povo não tem pão, que comessem brioches.

  A pressão para que ela controlasse seus gastos aumentava a cada dia e fez até mesmo com que seu marido - o rei Luís XVI - pedisse à Antonieta que ela diminuísse seus gastos com roupas e penteados, e sua resposta foi que se ela parasse de gastar com roupas, 200 estabelecimentos teriam que fechar as portas no dia seguinte.

A rainha camponesa 

  Porém, ainda assim, em 1778 Maria Antonieta ganha de presente o Petit Trianon como presente por ter dado a luz a seu primeiro filho e resolve se mudar para lá. Nesse pequeno palácio com um ar mais rústico passa a adotar um estilo de vida mais simples, o que novamente impactou seu vestuário.

retratos de Maria Antonieta por Vegée

  Nessa fase de sua vida, ela aboliu elementos que a identificavam como uma aristocrata, como os espartilhos, armações, tecidos pesados. Essa atitude revoltou a muitos por dois motivos: era uma absurdo que a Rainha da França privasse a nobreza de vê-la e patriotas a acusavam de prejudicar o mercado nacional porque o tecido utilizado em seus novos vestidos - a musselina - era importado, ao contrário da seda que era produzida no país.

  Como se não bastasse, em 1783 Elizabeth Louise Vigée a retratou no vestido que passaria a ser conhecido como Chemise a la Reine (camisola à Rainha, em tradução livre), o que escandalizou a todos por mostrar uma pessoa tão importante em trajes que lembravam camisolas e roupas de baixo. A repercussão foi tão negativa que logo depois Vigée fez uma outra versão do mesmo retrato, dessa vez com um vestido que seria considerado mais adequado para seu status social. 

Confinada 

Maria Antonieta na prisão Temple, 1793
Maria Antonieta na prisão Temple, 1793

  A situação na França se tornou ainda mais complicada o que resultou na Tomada de Bastilha e consequentemente a Revolução Francesa, em 1789. Nesse momento a família real é presa e os bens presentes em Versailles depredados ou saqueados.

  Mesmo em um momento puramente político a moda ainda teve seu papel: É simbólico o fato de que quando a população revoltada tomou o palácio de Versailles, fizeram questão de destruir todo o guarda roupa de Maria Antonieta uma clara mensagem de ódio a algo aparentemente inofensivo como roupas.

  Em seu confinamento, sem cabeleireiros e costureiros o visual da rainha passou a ser extremamente básico, e mesmo assim ela tentava manter uma aparência digna, com roupas limpas na medida do possível, o cabelo com o penteado simples, e vestes de luto quando foram necessárias. Mesmo no período mais difícil de sua vida Maria Antonieta sabia do poder que seu visual tinha. Esse esforço não passou despercebido aos olhares de quem a vigiava, e guardas eram instruídos a serem cada vez mais rígidos, seja não deixando com que ela tivesse privacidade ao se vestir, seja revistando itens de vestuário e costura que entravam na cela e podiam conter mensagens conspiradoras.

  Tendo que lidar com a morte de entes queridos, definhando de doença e então condenada à morte, Maria Antonieta sobe à guilhotina para ser executada em um vestido completamente branco, simples e austero, sua última afirmação de moda.

"Em seu último dia na França, como no primeiro, todos os olhos estariam fixos nela." Weber

Considerações finais 

  Sendo impossível abordar a vida de Maria Antonieta inteira em apenas um artigo e muito menos todo contexto histórico que resultou na revolução francesa essa sequer era minha intenção. Trago aqui um recorte, uma abordagem focada no micro ambiente que eram as roupas da Maria Antonieta, os aspectos que influenciaram o que ela vestia, como a sua forma de se vestir influenciou como ela era vista, e consequentemente, como toda a sua relação com moda a tornou extremamente impopular e definiu seu destino.

  É impossível isolar a Moda de uma época de seu contexto histórico, e estudar a moda do século XVIII revela muito sobre gênero, classe social, economia, política...a moda perpassa por todos esses aspectos, e como diz uma frase creditada a  Louis XIV:

"A moda é o espelho da história."

  Encerro aqui esse artigo e recomendo a todos que se interessam pelo assunto a leitura do livro da Weber. 

Bibliografia:

WEBER, Caroline. Maria Antonieta: como a rainha se vestiu para a Revolução. Rio de Janeiro: Zahar, 2008

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Se arrume comigo: edição vitoriana

    Como uma mulher se vestia na era vitoriana? Eu já tinha trazido temas típicos de blogueiras de moda mas pra falar de reconstrução histórica como 1 peça, 3 looks: edição vitoriana, e dessa vez para o 1o vídeo do canal mostro as camadas que faziam parte de um traje feminino de 1880s. Acompanhe:



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