sábado, 29 de maio de 2021

Ensaio fotográfico: Passeio Steampunk

    Em 2019 participei de um passeio de Maria Fumaça promovido pela comunidade steampunk de Campinas, aqui em São Paulo. Adoro a literatura fantástica e ficção científica então steampunk é um assunto que me interessa também. Além do passeio tivemos algumas atividades como palestras, apresentações...e eu até mesmo falei um pouco sobre como montar o figurino pra um personagem steampunk! 

    Estando com um traje de passeio vitoriano 1890s e ao lado de uma Maria Fumaça da época bom...tirar algumas fotos foi inevitável, haha. Deixo abaixo minhas favoritas: 

Fotos por Danielle Gressoni

traje de passeio 1890s - ensaio steampunk

traje de passeio 1890s - ensaio steampunk

traje de passeio vitoriano 1890s - ensaio steampunk

traje de passeio vitoriano 1890s - ensaio steampunk

traje de passeio vitoriano 1890s - ensaio steampunk

Fotos por Debora Puppet

traje de passeio vitoriano 1890s - ensaio steampunk

traje de passeio vitoriano 1890s - ensaio steampunk

traje de passeio vitoriano 1890s - ensaio steampunk

traje de passeio vitoriano 1890s - ensaio steampunk

   Eu adorei as fotos desse dia, não sei porque demorei tanto para compartilhá-las por aqui. Espero que você também tenham gostado. Não vejo a hora de poder voltar a fotografar assim... 

    Até a próxima! 

    Ps.: Peço que não compartilhem as fotos sem minha permissão, por favor. Mas caso deseje é só entrar em contato! 

Patrocinado: vestidos de mulheres


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Desafio de costura histórica #2: Stays 1780s

    O tema do Desafio de Costura Histórica desse mês é Silhueta e mais uma vez eu refiz alguma peça que eu já tinha no meu acervo. Dessa vez um stays 1780s. Desde a primeira vez que vi essa peça no acervo do V&A Museum quis fazer algo semelhante, mas de primeira eu não tinha encontrado um tecido parecido e por isso fiz uma versão em floral

stays século XVIII V&A Museum

Molde e corte:

molde stays rococo

    O molde desse stays está presente no Corset and Crinolines, da Norah Waugh, que passei pro papel com o auxílio de um projetor. Como eu já tinha feito um mockup anteriormente, pulei essa parte, já que eu sabia que o molde me serviria. Cortei o molde no tecido jacquard, entretela, brim e tricoline.  

paineis stays século XVIII

Costura e acabamentos:

    Após o corte apliquei entretela no tecido externo para que este ficasse mais reforçado. Depois uni os painéis, costurando o tecido externo junto do brim e o forro separadamente. Abri a costura no ferro de passar nas duas peças.

    Depois apliquei o soutache pra decorar a divisão dos painéis, marquei e costurei as canaletas e inseri as barbatanas - que dessa vez resolvi substituir abraçadeiras, um método que eu já vi algumas recriadoras utilizarem - e os cordões no decote. Depois uni a parte externa com o forro, deixando os avessos pra dentro. 

ilhós bordado à mão

stays século XVIII finalizado

    Então pliquei o viés em volta de toda a borda (definitivamente uma das partes mais demoradas, haha), bordei os ilhóses à mão e estava pronto! Depois foi só arrematar fios soltos e passar o cordão, de forma espiralada como na época. 

Resultado: 

    Eu fiquei bem feliz com o resultado! Realmente era uma peça que eu queria já fazia tempo e fiquei satisfeita de ter conseguido fazer algo pelo menos próximo do original. Foi interessante também observar as diferenças na costura e acabamento ao longo dos anos desde a minha primeira tentativa de fazer stays. 

Ficha do desafio: 

*Desafio: silhueta 
*Materiais usados: jacquard, entretela termocolante, brim, tricoline, viés de algodão, soutache e cordão acetinado. 
*Molde: do livro corset and crinolines, da Norah Waugh
*Data aproximada da peça de referência: 1780-89 
*Quanto tempo você levou nessa peça: Aproximadamente 17h
*Quando planeja usar: em breve! Assim que terminar o traje que estou fazendo no momento 
*Como foi feito: costuras gerais na máquina, alinhavos e ilhóeses feitos à mão 
*Custos aproximados do projeto: aproximadamente R$60, considerando que só tive que comprar o tecido externo, viés e as braçadeiras. O restante eu já tinha em casa. 

Referências: 

(exceto a do V&A Museum, todas foram fontes que utilizei anos atrás quando estava aprendendo)

A history of costume, Carl Köhler
Corset and Crinolines, Norah Waugh
V&A Museum http://collections.vam.ac.uk/item/O13864/stays-unknown/

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Desafio de costura histórica #1: Jarreteiras do século XVIII

jarreteiras bordadas do século xviii

    O primeiro tema do Desafio de Costura Histórica 2021 era 'roupas de baixo' e escolhi fazer uma jarreteira nova, mais histórica que a outra que fiz anteriormente, toda bordada à mão. Aqui nesse post você acompanha como foi a aventura, rs. 

Inspiração:

jarreteiras do século XVIII
    Para o motivo do bordado eu me inspirei bastante e em modelos da segunda metade do século XVIII, mas resolvi simplificar na hora de desenhar o meu porque eu não sou muito hábil em bordado. 

Pontos: 

pontos de bordado livre
    Antes de escolher o que iria utilizar treinei alguns pontos básicos do bordado livre, e a partir disso escolhi os que eu tinha mais facilidade pra compor o meu desenho. Utilizei o haste nos galhos, corrente nas folhar, nó francês nas flores pequenas e o ponto rosa na flor central. 

bordando as jarreteiras

    A montagem foi bem simples, e inclusive mostro aqui nesse vlog do canal:

   



Resultado:

jarreteiras bordadas do século XVIII

jarreteiras bordadas do século XVIII



Fiquei bem satisfeita com o resultado! Me surpreendi positivamente com o bordado, que apesar de amador ficou bem melhor que o que eu esperava, haha. Só achei a largura meio larga, numa próxima eu faria as jarreteiras mais estreitas. Mas ainda assim gostei. 

Ficha do desafio: 

*Desafio: roupa íntima
*Materiais usados: sarja, linhas de algodão para bordado, fita de cetim 
*Molde: desenho livre mesmo
*Data aproximada da peça de referência: segunda metade do século XVIII
*Quanto tempo você levou nessa peça: Aproximadamente 5h
*Quando planeja usar: em breve! Assim que terminar o traje que estou fazendo no momento 
*Como foi feito: bordado à mão e a montagem na máquina. 
*Custos aproximados do projeto: diria que R$3 porque só precisei comprar a fita, o restante eu tinha em casa. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Desafio de Costura Histórica 2021

 

  Vamos costurar juntos em 2021? Desafios de costura histórica são uma ótima forma de estimular a criatividade, confraternizar com pessoas com gosto em comum e desenvolver habilidades. No campo da costura histórica ele não é uma novidade, em 2012 a Leimomi lançou um em seu blog. Eu participo desde 2014, você pode ver minhas entradas nesse marcador aqui

  A ideia do desafio é propor temas e deixar aberto para quem se interessa por costura histórica reproduzir suas peças e ir trocando figurinhas ao longo do processo. Aqui, consideramos como costura histórica a reprodução ou inspiração nas modas de períodos anteriores a 1970. Vale acessórios, roupas completas, costura, tricô, bordado...a ideia é explorar.  

 Como Funciona: 

Todo mês as três anfitriãs divulgarão em seus blogs algumas ideias para você se inspirar para o próximo desafio.

Você pode mostrar seu trabalho num blog, no seu canal ou no seu instagram. É só marcar a hashtag do evento (#dchBR2020) e a hashtag de cada desafio (confira a lista abaixo) e postar as fotos do seu projeto com as seguintes informações:

*Desafio

*Materiais usados

*Molde (usou um molde pronto, de um livro ou feito por você?)

*Data aproximada da peça de referência

*Quanto tempo você levou nessa peça

*Quando planeja usar

*Como foi feito (à mão, à máquina, técnicas históricas, etc)

*Custos aproximados do projeto

Os desafios:

 

Janeiro – Roupa íntima | #DCH2021JANEIRO

A roupa íntima é a base de toda roupa histórica, então nada melhor do que começar por ela, né? Chemises, calçolas, meias, jarreteiras, corset-cover, anáguas… aqui vale tudo!

Fevereiro – Silhueta | #DCH2021FEVEREIRO

Toda época tem uma silhueta característica. Algumas silhuetas são construídas com peças estofadas (pense em suportes de mangas e almofadinhas vitorianas, por exemplo) e armações (crinolinas, paniers, merinaques), mas outras são marcadas com cintos e faixas. Qualquer peça que seja usada para criar a silhueta de um determinado período é bem-vinda aqui

Março – Bolsas pra que te quero! | #DCH2021MARCO

Bolsas e bolsos são parte da experiência humana em todas as épocas. Para esse desafio, escolha uma peça de qualquer tipo – pode ser algo muito chique como um bolso bordado ou a simples bolsa de couro usada por um peregrino medieval – que sirva para guardar objetos dentro dela.

Abril – Acessórios de cabeça | #DCH2021ABRIL

A gente sempre pensa em chapéus, mas a cabeça humana já foi coberta e decorada com uma série de coisas: toucas, véus, tiaras, presilhas, fitas… Então que tal produzir um acessório de cabeça da época de sua preferência?

Maio – Gambiarra | #DCH2021MAIO

Nem sempre a gente consegue os materiais da época ou até aquilo que é usado pelo povo da costura histórica na gringa. Nessas horas entra em ação o super poder brasileiro da GAMBIARRA, ou, como a gente gosta de chamar por aqui, LOGÍSTICA CRIATIVA. Nesse desafio a gente solta a criatividade e a capacidade de inovar, fazendo peças históricas com materiais totalmente alternativos e fora do que é usado normalmente.

Junho – Desafio de Cor: Vermelho | #DCH2021JUNHO

Junho, mês dos namorados, o amor está no ar… Então que tal criar uma peça histórica, de qualquer tipo, usando vermelho?

Julho – Inverno | #DCH2021JULHO

Sabe aquela peça quentinha que você sempre quis e que provavelmente dá pra usar até no dia-a-dia. Esse é o desafio para você produzir uma peça de inverno. Não precisa ser inverno europeu: pense em algo que seria adaptado à temperatura de inverno da sua região.

 Agosto – Parte de cima | #DCH2021AGOSTO

Hora de vestir a parte de cima do corpo. Pode ser uma peça que faça parte de um conjunto (um corpete, por exemplo) ou uma peça única (uma camisa, digamos). O importante é vestir o tronco.

Setembro – Parte de baixo | #DCH2021SETEMBRO

Agora vamos para as pernas. Pode ser uma peça que faça parte de um conjunto ou uma peça única. Mas esses dois desafios (agosto e setembro) podem ser uma boa oportunidade para você fazer seu primeiro traje, com peças coringa que depois possam ser usadas com outras combinações.

Outubro – Desafio: Fantasias de inspiração histórica | #DCH2021OUTUBRO

Hora de soltar toda a sua criatividade: Fantasia de personagem histórico, versão histórica de personagens fictícios, mashups históricos em cosplays… o céu é o limite! Nesse desafio você pode fazer um traje completo, se estiver se sentindo particularmente ousado, mas também pode fazer apenas uma peça.

Novembro – Desafio do Metro | #DCH2021NOVEMBRO

O que você consegue fazer com no máximo 1 metro de tecido? Esse é o desafio perfeito para você criar um pequeno projeto relaxante e econômico, reutilizando materiais que você já tenha em casa.

Dezembro – UFOs (unfinished objects/ objetos não terminados) | #DCH2021DEZEMBRO

Todo mundo tem um projeto que ficou pelo meio do caminho, por falta de tempo ou de paciência. Então, que tal fechar o ano com aquele sentimento de satisfação e finalizar esse UFO?

Blogs anfitriões: 

A Modista do Desterro 

Merlim Crafts 

Como vai funcionar por aqui: 



No blog: descrição dos meus projetos finalizados junto da ficha dos mesmos, ao fim de cada mês.

No Instagram: fotos do processo, compartilhamento de inspirações para cada tema e de projetos de outros participantes

No Twitter: threads com inspirações de cada tema e links de referência para cada mês 

Não se esqueçam de comentar com seus links caso pretendam participar! E usem as hashtags nas redes sociais, (#dchBR2020 e a específica de cada) E podem me marcar, viu? A ideia é realmente interagir ;)

Ansiosa pra ver as criações de vocês. 

Participantes: 

Merlim Crafts

A Modista do Desterro

Vic Trindade 

Tupá Guerra/ Dra. Demodé

Lales Cantarelli / Retrós Histórico

Stephany Krause

sábado, 14 de novembro de 2020

Tutorial: inserção de renda

 Inserção de renda - ou lacing insertions em inglês - é uma técnica de costura muito presente em peças pelo menos desde o século XVI, e que até hoje vem sendo usado. É uma decoração em renda comumente feita num tecido de algodão, que deixa o tecido vazado embaixo, trazendo refinamento e transparência a uma peça.

chemise elizabetana

   Na Era Elizabetana e Renascimento, esse detalhe aparece principalmente em chemises, nas roupas de baixo de classes mais abastadas. 

roupas de baixo vitorianas

   É no fim do século XIX que as inserções se tornam cada vez mais comum, com desenhos cada vez mais intrincados. Aqui, elas estão decorando peças de baixo como combinações, corset covers, e anáguas.

roupas eduardianas

Já no início do século XX ela passa a aparecer também nas roupas externas, como em camisas e tecidos de verão. 

O tutorial que fiz é em vídeo e você pode conferir abaixo:

   

Para mais vídeos, se inscreva no meu canal do youtube

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Filme: Emma. (2020)

Emma (2020)

    Um dos filmes mais esperados esse ano pela comunidade de costura histórica e revivalismo, Emma. (sim, com um ponto final no título) estreou pouco antes do estouro da epidemia que estamos vivendo e tenho a impressão que isso ofuscou discussões sobre o filme, o que acho uma pena, porque até então é um dos meus preferidos que assisti esse ano e resolvi fazer uma resenha e, claro, trazer uma breve análise do figurino e spoiler: ele está soberbo!

O enredo: 

    Emma é mais uma sátira social de Jane Austen, célebre escritora do início do século XIX. A personagem principal é descrita como bonita, inteligente, esperta e adorada por todos. Sem grandes ocupações, sua única responsabilidade é com seu pai e ela ocupa o resto de seu tempo arranjando casamentos e fazendo passeios com sua amiga Harriet Smith, que mesmo numa posição social dita como inferior é muito querida à Emma. Um outro amigo muito presente é Mr. Knightley, amigo da família que visita a casa com frequência e faz as vezes de grilo falante, repreendendo as más atitudes de Emma Woodhouse.

Personagens do filme Emma

    A história então se desenrola em meio a jantares, bailes e visitas, onde vemos que tentar interferir na vida das pessoas é sempre uma péssima ideia, e, claro, que as aparências enganam. É uma história cheia de intrigas amorosas e personagens (que são diversos e interessantes, como costumeiro nas obras de Austen), no filme fica até difícil acompanhar todos. 

   É um filme feito de forma primorosa, com um design de produção incrível, uma trilha sonora divertida e atuações convincentes. Carrega o humor e romance típico das obras da Jane Austen sem deixar de lado a crítica social aos valores da época. Em relação ao roteiro, diria que ele é bem conduzido e não sentimos o tempo passar, mas apesar disso, creio que o desenvolvimento do caráter de Emma acabou sendo deixado um pouco de lado. Uma personagem que foi escrita para ser detestada no início e adorada no final não teve uma rendição muito bem mostrada.

O figurino:

    O figurino é algo que precisa ser comentado a parte, porque ele tá simplesmente incrível! 

Emma e Mr. Knightley durante o baile

   Emma. retrata bem as principais características da moda da época (1810-1820), que eram os vestidos leves, a cintura elevada, o uso de sobreposições... o que já estamos acostumados a ver nas adaptações de Jane Austen, mas algo interessante nesse filme é que ele se passa em várias estações do ano, mostrando como as roupas variavam de acordo com o clima. 

Emma e Harriet

    Por se tratar de uma história contada por meio de situações corriqueiras da vida de uma pequena comunidade, vemos os personagens em diversas situações sociais como jantares, bailes e missas, então é possível observar a variedade que havia no vestuário de uma mesma época, com diferença até mesmo entre classes sociais - o que é importante, considerando que na maior parte das vezes só vemos retratadas as vestimentas das classes mais abastadas.


    É notável como o figurino é tão bem pesquisado que vemos até mesmo réplica de peças de museus! Essa acima, por exemplo, é uma réplica de um exemplar que está no Victoria and Albert Museum. Existem outras peças que são inspiradas em itens históricos, e eu achei bem divertido tentar ir identificando quais eram essas réplicas. 


    Eu também fiquei encantada em ver lojas de tecidos, provas de roupas, as combinações conforme as peças do guarda roupa eram reutilizadas...ficou algo bem rico e verossímil, afinal é bem interessante ver como a moda funcionava nesse aspecto.

Mr. Knigtley se arrumando

    E algo incomum que vemos logo na abertura é a arrumação masculina, mostrando as camadas que eram utilizadas pelos cavalheiros. A demonstração fica a cargo de Mr. Knightley, que é um representante do cavalheiro ideal da regência. 

Considerações finais:

    Emma. é não apenas uma ótima adaptação do clássico da literatura como um bom filme de época per se, recomendadíssimo pra quem procura uma história bem humorada de forma inteligente, e com certeza uma boa fonte de inspiração pra quem aprecia a moda do período regencial. Acredito que ficará como uma referência no gênero. 

    Por hoje é só, logo mais apareço com mais resenhas de filmes de época e meus projetos pessoais de figurino. Pra quem quiser saber mais sobre a moda da época, recomendo esse outro post aqui do blog:


Até mais! 

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A moda esportiva no século XIX

Le Chalet du cycle au bois de Boulogne

    Da mesma forma que o que vestimos hoje numa reunião de trabalho é diferente do que utilizamos em uma festa ou na academia, o mesmo era aplicado durante a Era Vitoriana. Nesse período podemos ver a formação de distinções bem rigorosas entre as roupas dependendo da hora e da circunstância, e errar na escolha poderia ser considerado uma falta de decoro. Ainda sim, muito se fala sobre a diferença entre vestidos diurnos e noturnos mas pouco sobre o que era utilizada durante as práticas esportivas na era vitoriana. Então esse é o tema do post de hoje ;)


Os lazeres vitorianos durante a segunda metade do século XIX

   Antes de começarmos a falar sobre a moda é necessário situá-la em seu contexto histórico. O que muda na sociedade para que seja necessário o uso de roupas esportivas? 
    Parte da resposta está na Revolução Industrial. As inovações tecnológicas da época tiveram inúmeros efeitos na sociedade mas iremos nos ater a dois: a noção de tempo livre e a evolução dos transportes.
    As jornadas de trabalho em fábricas e indústrias eram extremamente exaustivas e o trabalho consumia boa parte do tempo da classe trabalhadora. Surgem então reivindicações para que haja mais tempo de descanso para os funcionários. O “tempo livre” é uma das invenções mais representativas da revolução industrial.


“De fato, na sociedade industrial o tempo de trabalho é central, e assume intensidade e ritmos dificilmente suportáveis para os trabalhadores; é por isso que surge e toma corpo o tempo livre, assim como é concebido ainda hoje: um tempo em que cada um pode dedicar-se - conforme as próprias aspirações e fora das necessidades e obrigações profissionais, familiares e sociais - a diferentes atividades para descansar, divertir-se e enriquecer a própria personalidade.” Daniela Calanca.

    É no decorrer da  segunda metade do século que o conceito de férias - uma mudança necessária das atividades do dia a dia -  é implantado. A partir de 1870 a burguesia passa a imitar os hábitos aristocráticos de passar uma temporada fora durante o verão e parte do outono, ou pelo menos ir para o campo durante os fins de semana. O esporte é então visto como um sinônimo de progresso,velocidade e aperfeiçoamento. 
   O desenvolvimento dos meios de transporte transforma a experiência de viagens, e consequentemente, de férias. Os trens diminuem o tempo de deslocamento até praias , tornando esse tipo de passeio mais frequente. 
   Numa sociedade em que a forma de se vestir mudava de acordo com a ocasião, o vestuário se adapta ao estilo de vida e segue o mesmo caminho, e então surgem roupas para atividades mais específicas, como o esporte. 

O início das roupas esportivas
exercícios físicos vitorianos
    Historicamente atividades físicas eram algo desencorajado para mulheres por acreditar-se que poderiam atrapalhar na fertilidade. Mas então a dita 'fragilidade feminina' passou a ser um problema a ser resolvido com exercícios leves que melhorassem a saúde, e vários doutores passam a indicar caminhadas, longas e calmas. A Cassel's Househood Guide - uma revista feminina - inclusive publica um guia de exercícios para mulheres, que consistem basicamente em exercícios de calistenia.
   A vestimenta indicada incluía bloomers no comprimento dos tornozelos, uma camisa folgada e uma saia curta, abaixo dos joelhos. Algodão era o tecido mais indicado e o uso do espartilho desencorajado, mas uma faixa drapeada (sash) era amarrada na cintura para marcar a silhueta. Tornar o conjunto feminino e bonito era uma tentativa de contornar a resistência das garotas em fazer exercícios e parecer estranha por isso.

esportes femininos vitorianos

    O arco e flecha e croquete foram uns dos primeiros esportes amplamente aceitos para mulheres. Não envolviam muito movimento do corpo e nem roupas especiais ou que seriam consideradas impróprias. O croquete por exemplo poderia ser jogado mesmo com o uso de crinolinas e corsets, e começou a ficar mais pular no fim de 1860s. 

O Traje de montaria 

trajes de montaria vitorianos

    Os vitorianos adoravam cavalos e estes eram utilizados desde o início do século XIX para lazer e transporte. Mas enquanto homens estavam sempre prontos para montar em celas, as mulheres necessitavam de vestimenta especial.
     Apesar de se assemelharem aos vestidos diurnos, os vestidos de montaria costumavam ser compostos de casacas, coletes, camisas brancas e cartolas, imitando a moda masculina. Tecidos em tons escuros eram o ideal e as peças não eram muito enfeitadas. Trajes de montarias mais elaborados  eram reservados para ocasiões especiais como caçadas e passeios em parques da cidade. Uma observação interessante pode ser feita sobre o comprimento das saias, que eram mais longas que o comum para que formasse um drapeado na montaria, e por dentro da barra era utilizado uma faixa de couro para proteger o tecido do atrito. Apesar disso, dispensava-se anáguas e podiam ser utilizadas calções por baixo da saia, no mesmo material do restante do vestido. O corpete era ajustado no corpo mas com as mangas mais soltas, para não restringir movimentos. O uso de botas e luvas de couro era indispensável. 

Vestidos de tênis

vestidos de tênis vitorianos

    O tênis foi um jogo inventado em 1860s por um oficial do exército chamado Walter Wingfield e o esporte foi patenteado em 1874, se tornando bem popular entre as mulheres, que jogavam em festas em jardins ou clubes.

"As primeiras garotas a jogar o recém criado tênis vestiam seus mais estilosos vestidos diurnos - sem crinolinas, que já estavam fora da moda, mas fortemente espartilhadas e com longas, drapeadas saias, presas para cima nas costas afim de formar anquinhas." Ruth Goodman

   Inicialmente, a vestimenta utilizada eram os vestidos diurnos, com todas as suas camadas. É na década de 1880s que roupas desenhadas especialmente para situações esportivas se tornam algo comum em revistas de moda e seus anúncios. As mudanças nesse tipo de vestuário incluíam um comprimento ligeiramente mais curto das saias e chapéus menores. 
    No tênis era comum usar um avental nas partidas para proteger o vestido de sujeiras. Em 1890s os cinturões suíços estão em voga e seu uso é indicado em detrimento do espartilho, por ser uma peça menos restritiva. A peça promovia mobilidade sem comprometer a estética da cintura fina que era popular na época. É também nessa década que revistas começam a apresentar modelos de vestidos feitos especificamente para serem usados em partidas de tênis.
    Uma padronagem comum nesses trajes eram as listras e xadrezes, e em relação a cores era preferível as claras como branco, creme e bege. Na década de 1890s as roupas passam a ser ainda mais confortáveis, com o uso de espartilhos adaptados para a prática de esporte. 

Trajes para patinação

vestidos de patinação vitorianos

    A patinação no gelo já existia há milhares de anos, mas foi na era vitoriana que se tornou um favorito. No inverno, pistas de patinação no gelo eram montadas em lugares públicos como lazer para a população. O esporte se tornou extremamente popular entre a elite inglesa, se tornando um evento social e consequentemente gerando a necessidade trajes adequados não só do ponto de vista funcional mas também do estético. 
  A primeira adaptação é o comprimento das saias, que costumam ser na altura dos tornozelos e usadas sobre anáguas acolchoadas. Cores vibrantes são as preferidas e observa-se também um maior uso da lã e tecidos acolchoados, frequentemente decorados com pele nas extremidades. Um acessório típico é o muffin, para esquentar as mãos. 

Trajes de banho

moda praia vitoriana
    Na Europa, a exploração da água como lazer surge no início do século XIX, e o primeiro estabelecimento de banho de mar é fundado por Dieppe em 1822. "As águas são para o verão o que os salões são para o inverno", diz o Jornal de Las Dames junho de 1846. No século XIX praticamente metade da população tinha meios de passar um feriado em alguma praia. E com isso, surge a demanda de roupas mais adequadas para os banhos de mar. 
   O traje de banho consistia de vestido e calçolas; o conjunto geralmente era feito no mesmo tecido e possuía decorações em cores contrasteantes. O espartilho para banho é desenvolvido para deixar mulheres que estavam acostumadas a usar roupas justas mais confortáveis em seus trajes de banho, que geralmente consistiam de peças soltas e largas. Boa parte das vezes essas roupas eram mais uma desculpa para usar trajes elegantes e diferentes pelas famílias que estavam viajando, mas também cumpriam sua função como roupas esportivas. Já escrevi um post especificamente sobre eles aqui no blog.

Traje de ciclismo 


roupas de ciclista vitorianas

    Andar de bicicleta com as saias e anáguas comuns era uma tarefa praticamente impossível, e quando ouve o boom da atividade em 1890s, junto vieram várias patentes de peças do vestuário desenvolvidas exclusivamente para o ciclismo. O esporte acaba se tornando um pretexto para a criação de roupas extravagantes, o que atrai críticas e caricaturas.
    O comprimento das saias era nitidamente menor, e algumas até mesmo possuíam cordões para que as mesmas pudessem ser franzidas até acima do joelho. Polainas eram utilizadas para proteger as botas. Uma grande característica das roupas de ciclismo são as mangas extremamente volumosas, e o uso de casacos com fortes referências na alfaiataria. Para climas mais amenos, haviam suéteres e camisas que seguiam as mesmas características. Também é a prática de ciclismo que ajuda a popularizar o uso de calças entre mulheres com os bloomers, que eram bermudas bem volumosas e compridas inventadas por Amelia em 1840, mas até então considerada uma peça controversa e não muito popular.  

   No fim do século XIX o desenvolvimento do transporte culmina na invenção do automóvel, o que novamente gera demanda para um vestuário específico, com o costume de usar véus e guarda-pós na viagem. No século XX as mulheres começam gradualmente a participar das Olimpíadas e a presença feminina no esporte é consideravelmente maior, mas aí já é assunto para outro post, certo?

Referências bibliográficas:
História da vida privada,Georges Duby e Philippe Ariès

How to be a victorian, Ruth Goodman
História social da moda, Daniela Calanga
Moda uma filosofia, Lars Svendsen *

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