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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Modes et Travaux e a moda dos anos 30

 

   O estudo da história da moda as vezes envereda por caminhos improváveis, onde alguém começa buscando aprender mais sobre crochê, se interessa por suéteres, se depara com peças vintage e quando vê já está estudando uma década nova e cruzando referências bibliográficas. Talvez seja o que tenha acontecido aqui, haha. De qualquer forma, trouxe hoje um brevíssimo resumo dos principais aspectos da moda dos anos 30 antes de apresentar algumas referências que ando pesquisando, da revista Modes et Travaux. Bora lá?

sábado, 15 de janeiro de 2022

Uma breve história da renda no ocidente

 "[as rendas] são muito mais que um fazer artesanal feminino desenvolvido ao longo dos séculos e culturas ocidentais. Elas são uma rica fonte de conhecimento, poesia e inspiração para inovação em vários campos, como os de têxteis, arte, arquitetura e design. " Vera Felippi

    Hoje as rendas são uma parte corriqueira do nosso vestuário e é possível encontrá-las facilmente em armarinhos, mas você já se perguntou como elas surgiram e se popularizaram? Hoje trago uma breve história de como a produção de renda se desenvolveu no ocidente. 

renda Cutwork italiano do século XVI
Cutwork italiano do século XVI

    Embora existam registros de trabalhos manuais como o bordado desde a antiguidade, o desenvolvimento da renda se deu a partir do século XV. Uma das primeiras técnicas para a sua produção consistia em bordar o tecido primeiramente e então recortá-lo em pontos estratégicos, formando um desenho vazado, conhecido em inglês como cutwork. 

    Assim que é desenvolvida a renda passa a aparecer no vestuário enfeitando roupas no lugar dos bordados ou complementando-os. Inicialmente, as principais técnicas eram a renda de agulha (que é feita a partir de um fio contínuo) e a de bilros (com os desenhos feitos a partir de vários fios). Os principais materiais utilizados inicialmente eram o linho, ouro e a seda. 


Detalhe de Venus, from the Seven Planets and ages of men, de Adriaen Collaert
Detalhe de Venus, from the Seven Planets and ages of men, de Adriaen Collaert

    Os primeiros países a desenvolverem esse tipo de renda são a França e Itália, mas a partir dos séculos XVI e XVII cada país desenvolve sua própria técnica para a produção de renda. Por exemplo, os conventos italianos eram os principais na produção de rendas de agulha. Já a Holanda tinha uma preferência maior pelas rendas que formavam os rufos. Alemanha e Inglaterra também eram grandes produtoras de na época. Desde o início, a produção de renda era muito associada às mulheres, que eram as principais responsáveis pelo desenvolvimento dos trabalhos manuais.


Punto in aria, que decoravam os rufos europeus no século XVI
 Punto in aria, que decoravam os rufos europeus no século XVI. Um único rufo poderia usar até 23 metros de renda. 

    No século XVII temos uma preferência ainda maior por rendas, que decoram as golas e punhos das roupas, principalmente. O seu uso era comum tanto por homem quanto por mulheres. Por ter uma produção extremamente demorada e intrincada, era a parte mais cara do vestuário e utilizada principalmente pela aristocracia. 


Detalhe de um retrato de George Villiers, o 1o duque de Buckingham
Detalhe de um retrato de George Villiers, o 1o duque de Buckingham

    A grande procura pelas rendas causou até mesmo o contrabando das mesmas, decorrente de proibições comerciais relacionadas à importação em países como a Inglaterra e a França. Existem vários registros no século XVIII de revistas de autoridades em procura de rendas contrabandeadas em casas, ateliês e até mesmo caixões!

    A Guerra de Sucessão Espanhola (1702-1714) freou a produção de rendas em vários pontos dos países europeus, impactando a economia dos lugares em que a peça era uma commoditie importante, como a França. Após esse embate, a França voltou a utilizar as rendas na ornamentação dos vestidos e esse uso se manteve presente até o fim do século, quando ocorre a Revolução Francesa e a moda passa a ser mais simples, rejeitando ornamentos relacionados à nobreza.

    As rendas então caem em desuso até o início do século XIX, quando Napoleão ascende ao poder e passa a adornar suas roupas com rendas, popularizando alguns tipos, como a renda d'Aleçon

 

Renda d'aleçon
Renda d'aleçon

    No Brasil, a chegada de D. João VI em 1808 aumentou a demanda pela produção de rendas por conta do maior número de eventos sociais, que influenciaram a elite a fazer uso de peças de roupas mais elaboradas. A importação de renda francesa também era muito comum, assim como revistas de moda,  por onde mulheres da elite aprendiam as técnicas para produzir rendas manuais. O uso das rendas de bilros no país é antigo, mas não há muitos registros formais de quando ela passou a ser utilizada. O ensino das técnicas eram feito de forma informal, em casa, para as moças da família ou criadas. 

    A Revolução Industrial do século XIX traz também o início da produção de rendas produzidas de forma mecânica. A Inglaterra surge com uma máquina em 1808, a Bobbinet, que foi a primeira a utilizar fios de algodão. No início, essas máquinas produziam redes que eram ornamentadas à mão, mas posteriormente foram inventadas versões que também bordavam as rendas. Até rendas famosas por serem feitas à mão, como a Chantilly, passaram a ser produzidas também de forma industrial. 


tear de renda do século XIX
Tear de renda industrial do século XIX

    Essa mudança impactou diretamente as mulheres que produziam rendas manuais, que tiverem seus empregos ameaçados e seus salários diminuídos. Em contrapartida, essa maior produção facilitou o acesso às rendas por classes menos abastadas. 

    No fim do século XIX popularizam-se as rendas químicas, que eram produzidas com uma técnica em que o motivo é bordado em um tecido que posteriormente é removido com processos químicos, deixando somente o desenho vazado. 


Decote de renda vitoriano
Decote de renda vitoriano produzido a partir da técnica de renda química

    No início do século XX ocorre a Belle Époque, movimento artístico que impactou a moda europeia onde o uso de rendas era intenso no vestuário feminino. Após algumas décadas, ela é tida por fora de moda por alguns estilistas famosos e cai em desuso. 

    A  produção das rendas manuais é impactada peça I e II Guerra mundial, as Guerras Civis Espanholas e a Crise Financeira de 1929, eventos que também tiraram muitas mulheres dos lares para assumirem postos no mercado de trabalho. A partir disso, a renda manual se torna mais um ofício mais raro, utilizado como lazer.

    O século XX também traz as fibras sintéticas a partir da década de 1930s utilizados em teares como Raschel, que são utilizados até hoje na moda. 

renda raschel
Renda do tipo raschel 

    Espero que a leitura desse texto tenha despertado curiosidade acerca do assunto e que vocês tenham aprendido um pouco aqui. Pra quem quiser se aprofundar, recomendo fortemente os livros citados nas referências. 

    Fico à disposição para ler outras sugestões de temas pra coluna de história da moda aqui no blog, que outros assuntos você gostaria que eu abordasse nesse formato? 

Até! 

Principais referências: 

Decifrando rendas, Vera Felippi 

History of lace, Bury Palliser 

Lace, a Sumptuous history, SFO Museum 


terça-feira, 24 de março de 2020

Por onde começar minha pesquisa sobre história da moda?

    


    Frequentemente me pedem indicações de livros sobre história da moda ou para recriação histórica, e depois de tanto passar essas informações por mensagens, resolvi reunir aqui os meus preferidos para quem quer fazer trajes históricos, estudar sobre história da moda e coisas afins. São obras que eu vivo consultando, seja para as pesquisas que faço aqui pros artigos do blog ou para confeccionar meus trajes. Deixo também o link* de onde encontrar esses livros para comprar ou baixar. Trago primeiramente livros mais abrangentes para quem está está procurando títulos para começar a se aventurar e ao final livros mais específicos, para os que gostam de esmiuçar determinados temas. Essa lista estará em constante atualização, viu?


A Roupa e a Moda - James Laver 

   É uma boa pedida pra quem tá começando pois, como o próprio subtítulo diz, é uma história concisa. Nele você vai encontrar descrições das principais silhuetas ao longo da história, de forma prática e ilustrada. A escrita também é agradável e não é excessivamente vaga, apesar de ser mais generalista. Pode ser encontrado aqui

Moda: uma filosofia - Lars Svendsen 


    Esse é para aqueles se interessam mais pelo campo da história social da moda. Lars é um filósofo que apresenta um panorama da história da moda relacionando-a com linguagem, corpo, arte, consumo e outros. Uma obra interessantíssimas para repensar a moda para além de simplesmente peças de roupas. Pra quem quiser conhecer mais, trouxe alguns comentários nesse post aqui no blog.Também pode ser comprado em edições físicas e cópias virtuais

História do Vestuário no Ocidente - François Boucher 

    Com cerca de 500 páginas coloridas num formato A4, é definitivamente um dos livros mais completos sobre o assunto, e trata desde o que ainda chamamos de indumentária, lá na antiguidade, até a moda das passarelas da década de 1980. Outro ponto interessante é a apresentação dos estilos em variadas regiões de forma individual, ao invés de generalizar toda a Europa, por exemplo. Por ser da finada Cosac Naify é uma edição esgotada, mas encontram-se cópias usadas na Estante Virtual e Amazon

Patterns of fashion - Janet Arnold 



    Para você que busca acurácia história essa série de livros é um prato cheio! Nele além de moldes - traçados a partir de peças de museus - desenhados em escala, são apresentados descrições dos materiais utilizados nos modelos e desenhos mostrando detalhes da parte interna e acabamentos utilizados. As edições que recomendo são a número 1 (1660-1860)2 (18860-1940) e 3 (1560-1620)

The cut of woman's clothes - Norah Waugh 

   Uma opção mais generalista para reconstrução histórica, nele são apresentados breves descrições da moda do período, materiais utilizados e molde das roupas, tiradas a partir de peças de museus, abrangendo as silhuetas entre 1600 e 1900s. É um dos livros que sempre dou uma consultada em minhas pesquisas. Pode ser encontrado aqui.Também existe a versão masculina, a The cut of men's clothes

História do Vestuário - Carl Kohler

    Um dos únicos dessa lista que aborda a antiguidade, também trás diagramas de algumas peças, além de extensas descrições sobre os estilos usados por homens e mulheres em diversos lugares. Não é o que mais utilizo, mas definitivamente recomendaria pare se ter à mão. Para quem quiser a cópia física em português, pode encontrá-la aqui, mas a versão em pdf também está disponível de forma gratuita aqui, em inglês.

The History of Underclothes
- C. Willett Cunnington


    É sabido que um traje histórico é construído de dentro pra fora, e estudar as peças de baixo que formam a estrutura e silhuetas das roupas é essencial pra isso. Para quem quer se aprofundar mais no assunto, The History of Underclothes é uma ótima opção. O que me chama a atenção é que além de traçar uma linha do tempo do que era utilizado, é descrito como essas peças realçavam determinadas partes do corpo, visto que o interesse mudava conforme a época. Em cópias físicas e digitais.

Costume in detail - Nancy Bradfield
    Um dos livros mais novos em minha coleção, mas já considero um dos favoritos e super indico! Ele é bem direto: Ilustrações e descrições breves das roupas femininas entre 1760 e 1930. O que eu adoro nele são as medidas de alguns detalhes das peças, os desenhos das peças internas...um prato cheio para quem quer reconstruir roupas de outras épocas da forma mais historicamente correta possível. 

Tecidos: história, tramas, tipos e usos - Dinah Maria Pezzolo

    Para quem quer costurar, um entendimento dos tecidos é essencial, e essa é uma ótima opção para saber mais sobre o assunto. Gosto de como ele aborda tanto a história de cada fibra e como ela foi utilizada ao longo da história e trás também as principais características de cada um deles e como utilizá-los. Pode ser comprado na Amazon, mas caso você seja ex-aluno Senac o site da editora oferece um desconto. 


18th Century Dressmaking - Lauren Stowell e Abby Cox

    Entrando no campo dos livros mais específicos, esse trata só sobre técnicas de costura do século XVIII. Traz diagramas e processo de construção de vários trajes e acessórios, não só no estilo da alta sociedade francesa mas abordando outras classes sociais e nacionalidades. Lauren e Abby são figurinhas conhecidas na comunidade de recriação histórica e sabem do que estão falando. Em cópias digitais e físicas

How to be a Victorian - Ruth Goodman



    Esse aqui é um pouco mais teórico, o foco dele é mostrar como era o dia a dia das pessoas durante a era vitoriana, escrito pela  Ruth Goodman, que é uma especialista em recriação histórica. Entre os assuntos abordados estão desde passatempos, atividades cotidianas até questões bem específica sobre sexo e festividades, por exemplo. Em relação à moda, encontram-se descrições sobre o processo de se vestir e o tipo de roupa que era utilizado em cada ocasião. Uma boa pedida para os que gostam da Era Vitoriana e querem conhecer mais a fundo. É possível encontrá-lo em e-book e em versão física

Para vestir a cena contemporânea - Século XVIII - Fausto Viana e Isabel C. Italiano


    Ainda sobre século XVIII, o livro de Fausto e Isabel é uma ótima opção em língua portuguesa. Trás tanto a pesquisa e descrições sobre os diversos estilos da época como também questões mais técnicas de costura, abordando trajes femininos e masculinos. Com imagens detalhadas de como costurar cada uma das peças e também diagramas de moldes, a melhor parte é: está disponível gratuitamente em PDF. Para acessar só clicar aqui

The Medieval Tailor's Assistant - Sarah Thursfield 

    Para os que querem se aventurar pela idade média, esse livro conta com mais de duzentas páginas sobre técnicas de costura e acabamento e moldes de diversas roupas e acessórios utilizados por homens e mulheres durante a era medieval,além de extensas descrições sobre a moda da época .Compensa comprar a versão digital aqui

The Tudor Tailor - Ninya Mikhaila e Jane Malcolm-Davies



    Na mesma linha, de livros escritos por especialistas em reconstrução histórica temos o The Tudor Taylor, que trata especificamente sobre as técnicas de costura do período Tudor, que aconteceu entre 1485 e 1603 na Inglaterra. O livro mostra diagrama e técnicas de costura de peças de baixo até mesmo acessórios, abordando várias classes sociais e os dois gêneros. Disponível aqui

    Bom, esses são os principais livros que eu indico, dentre as inúmeras opções para quem pesquisa esses assuntos. Mas ainda assim caso queria tirar alguma dúvida em sua pesquisa e acha que eu posso te ajudar com indicação de alguma bibliografia não hesite em me contatar no julianalopesmf@gmail.com

    Até a próxima! 

Leitura recomendada: 

Como começar na recriação histórica

*parte dos links são afiliados, o que significa que eu ganho uma pequena comissão na compra. Você não paga nada a mais por isso e me ajuda a continuar criando conteúdo de qualidade. Garanto que só indiquei livros que realmente uso e sempre falei sobre.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Uma breve linha do tempo do corset

    A peça que chamamos de corset hoje sofreu diversas mudanças ao longo do tempo. Com a principal função de sustentar o corpo e delinear a silhueta desejada, o corset (com seus diversos nomes) esteve presente na moda feminina desde 1500 até o início do século XX. São séculos e séculos de história e minha intenção aqui é apresentar os principais aspectos que diferenciam uma época da outra sem ser demasiadamente descritiva.  


    É no fim da era medieval que as roupas femininas passam a contornar mais o corpo, e com o renascimento começamos a ver peças cada vez mais estruturadas, que não só contornavam o corpo como moldavam-no surge então os primeiros 'corsets'.

Período Tudor (1500-1600)


    As primeiras peças que cumpriam essa função de dar suporto ao tronco foram os pair of bodies ou pair of stays, que surgiram durante o século XVI. Estamos aqui no início da história da moda propriamente dita, e a elite buscava uma vestimenta que a diferenciasse. Sendo assim, um tronco alongado e postura ereta era uma forma de demonstrar poder, e o pair of bodies contribuía para que essa silhueta fosse alcançada. Com barbatanas de baleia em volta de toda a peça e na parte da frente uma placa de madeira (busk) que era utilizada para manter a peça rígida, nem sempre possuíam forro e tinham ilhós para manter a anágua no lugar. Existem poucos registros de pair of bodies originais que tenham sobrevivido ao tempo, mas aparentemente as peças não possuíam decorações. Foi nessa época também que surgiram aqueles corsets de ferro que vemos por aí, mas seu uso era ortopédico. 

Barroco (1600-1720)


    O barroco na moda acontece por volta do século XVII e se estende até o início do século XVIII. Nessa época o stays cai em desuso, e era o corpete do vestido que recebiam as barbatanas para deixá-lo rígido e estruturado. 

Rococó (1720-1770)


    Aqui, a linha do busto dos vestidos se torna cada vez mais baixa, e os stays vão só até a linha dos mamilos. A silhueta é cônica e vemos modelos com e sem abas na parte de baixo, que serviam para evitar que a anágua escorregasse. Também é nessa época que se torna mais comum os stays com amarração frontal, que facilitava na hora de vestir. Podiam ser peças simples ou ricamente decoradas. Já abordei stays do século XVIII anteriormente, e vocês podem conferir o post aqui

Diretório (1770-1800)


    Depois da revolução francesa a moda muda drasticamente, e a busca é por roupas que sejam menos restritivas e mais leves; E consequentemente as roupas debaixo acompanham essa mudança. Surge então o short stays, que são modelos mais curtos cuja função é sustentar os seios sem comprimir a cintura. O padrão de beleza também passa a ser seios separados e 'em bandeja'. 

Império e Regência (1800-1890)


    Ainda leves, os stays voltam a ser compridos. É possível observar também que o uso de barbatana se reduz ou até mesmo é substituído por barbantes. As decorações são mais discretas, e constituem em bordados ou o uso de tecidos coloridos. 

Era vitoriana inicial (1830-1850)


    Também chamada de romantismo, o início da era vitoriana traz a volta do traje em duas peças, e voltamos a ver saias armadas em contraste com corpetes ajustados. Aqui 'corset' passa a ser o nome mais usado pra definir esse tipo de peça, que é usado cotidianamente por mulheres de todas as classes sociais. As alças desaparecem a cintura volta a ser afinada. O uso de nesgas ajuda a peça se encaixar melhor nos quadris.

Era vitoriana tardia (1850-1900)


     A invenção do busk junto com o uso de barbatanas e ilhós de aço mudou completamente a confecção dos corsets, permitindo que as peças fossem cada vez mais apertadas e com modelagens mais curvilíneas. É também o início da prática do tight-lacing (uso constante do corset afim de diminuir medidas) por algumas mulheres. No final do século XIX a cintura é fina como nunca antes, e vemos peças ricamente decoradas. A partir de 1890 também surgem corsets que não cobrem mais o busto e são mais curtos, chamados de waist-cincher. Tem um post aqui no blog só sobre corsets vitorianos,com curiosidades e desmitificando algumas coisas. 

Era Eduardiana (1900-1920)



    Depois da virada do século os corsets se alongam e a silhueta buscada é em formato de S: ombros volumosos, cintura fina, abdômen comprimido e quadris projetados para trás. Novamente o corset ajuda a conquistar a silhueta desejada e esse efeito era atingido mesmo com peças mais leves, seja com peças com apenas uma camada de tecido ou até mesmo corsets feitos com fitas costuradas em pontos estratégicos. Também era comum que a peça tivesse ligas que eram presas à meia. 

    Fatores como a primeira guerra mundial e a maior inserção da mulher no mercado de trabalho fizeram o corset cair em desuso. A peça só voltaria a ser usada novamente com frequência durante a década de 1950 com o New Look da Dior e também teve um revival na década de 80 e 90, mas isso é assunto para outro post. 

    Ps.: As datas usadas para definir os períodos são baseadas nas mudanças na história da moda na Inglaterra e França, que eram nações influentes em relação à moda. 


Referências:

Corsets and Crinolines, Norah Waugh
The History of Underclothes, Cecil Cunnington
Corsets in context: a history - Fine arts museum of San Francisco


Outras leituras recomendas: 




quarta-feira, 18 de julho de 2018

Como uma mulher vitoriana se vestia: Parte I

I - Peças do guarda roupa e seus significados 


    Quais itens eram essenciais no guarda-roupa de uma mulher bem vestida na era vitoriana? Ainda que reparemos mais nos vestidos armados e cheios de detalhes, existiam várias outras peças que ajudavam a compor o visual feminino e podiam representar status, novidades tecnológicas e até mesmo tendências. Explorando alguns detalhes e curiosidades sobre as peças, apresento um breve guia de como uma mulher vitoriana se vestia. Nas montagens, busquei trazer exemplos de peças do início, metade e final do período para ilustrar.

 Chemise 


    O processo de se vestir se iniciava pela chemise, que era a primeira peça a estar em contato com o corpo e por conta disso também era lavada com mais frequência. De um ponto de vista cultural, a chemise era carregada de um ar de pureza, sem apelo sexual. O que significava que não havia nada de provocante na imagem de uma mulher vestida apenas de chemise na propaganda de uma marca de sabonetes, por exemplo. 

 Drawers 


    Espécie de calçola cujas pernas são unidas apenas no cós, os drawers começaram a ser mais usadas no século XIX e já surgiram causando certo alvoroço por serem ‘imitações’ das calças masculinas, o que era considerado escandaloso em uma época onde papéis de gênero eram bem distintos. Com a chegada da crinolina, elas foram bem mais aceitas por impedir que as pernas fossem mostradas por conta do movimento da peça. Para mulheres que estavam acostumadas a ter diversas camadas de tecido em volta de sua perna, estar apenas com drawers embaixo da saia poderia ser desconfortável.

    No final do século XIX aparecem as combinações, macacões feitos em linho ou seda, geralmente bem decorados e que substituíam o uso de chemise e drawers. 

Meias


    A partir de 1837 as meias começaram a ser tricotadas em máquinas, com algumas opções de cores. Até então o branco estava na moda mas a partir de 1850s cores vivas e padrões começaram a ser usados pelas mais jovens, ao ponto de no fim do século meias calças pretas e lisas serem vistas como algo mais conservador. A lã era o material mais indicado e com um preço razoável, meias de seda eram um luxo para poucas e uma meia ricamente decorada com bordados podia ser algo considerado sedutor, já que os tornozelos ficaram à mostra com o movimento das saias e anáguas. 

    Até a década de 1880 as meias eram presas por jarreteiras, mas depois começaram a ser presas por suspensórios em um cinto e depois com os mesmos presos no corset.

    Idealmente chemises, drawers e meias eram peças trocadas diariamente. O mais comum é que essas peças fossem claras e simples. Uma roupa de baixo enfeitada era um grande sinal de status, assim como mantê-las sempre bem asseadas. 

Corsets



    Corsets eram usados por mulheres de todas as classes sociais e era uma peça extremamente importante e significativa.


“Eles proporcionavam moda, naturalmente, mas para a mente vitoriana eles também proporcionam auto-respeito, sedução, conformidade social e uma série de benefícios à saúde” 
Ruth Goodman. How to be a victorian, p.64 


    Acreditava-se que os órgãos internos das mulheres precisavam de suporte, e havia também o fato de muitas delas perderem o tônus muscular por usarem corset desde cedo. Usar um corset também facilitava a manter uma boa postura e mantinham o corpo aquecido. Apesar de uma item controverso, médicos da época apoiavam o uso do corset, e só se preocupavam com a prática do tight lacing - o uso de corsets muito apertados a fim de modificar as costelas flutuantes e afinar a cintura..

     Apesar de entre 1840 e 1850 os corsets serem comumente feitos em casa a partir de 1860 isso muda, quando é desejável ter uma cintura mais fina e os corsets feitos por profissionais providenciavam isso. Também é nessa época que surgem marcas renomadas de corsets, cujas peças são extremamente elaboradas e refinadas.

    A partir da década de 1890, onde as cinturas estão finas como nunca estiveram e os corsets cada vez menores, como resultado dessa discussão sobre a saúde e os malefícios do tight-lacing surgiram os chamados corset saudáveis, como eram divulgados. Alguns inclusive sendo indicados para prática de esportes. 

    É possível falar muito sobre corsets, e inclusive já tem um post no blog sobre o assunto que recomendo a leitura: E essas mulheres que se apertavam em corsets? 

Anáguas e outras peças de suporte



    O kit básico que era usado por todas as mulheres consistia de anáguas em uma anágua de flanela e outra de algodão, mais próxima à pele. Entre 1849 e 1850 as mais fashionistas usavam mais peças para dar volume à saias, como a anágua de cordão (que era barata e fácil de confeccionar), anáguas acolchoadas, de babados, entre outras.

     A crinolina foi inventada em 1856 e passou a substituir o uso de várias anáguas. Conforme meninas tinham que reaprender a sentar-se e andar por conta da crinolina, cartunistas adoravam usar a crinolina como tema de suas sátiras. O uso da crinolina inclusive movimentou a economia por conta da quantidade de aço que era utilizado em sua confecção. Ainda que pareça algo que restrinja movimentos, parte das mulheres trabalhadoras também usavam crinolinas, como costureiras. Algumas também deixavam para usar a crinolina apenas aos domingos.

     Mais ao final do período surge a bustle pad, que são almofadas comumente recheadas com penas, quando a moda passa a ser saias cujo volume fica na parte de traz e com muitos drapeados

Complementos 



    Corset covers, chemisettes, coletes e camisoles eram usadas pra esquentar, suavizar as marcas das barbatanas sob o tecido do vestido e mostrar algum detalhe no decote ou mangas. E, novamente, quanto mais enfeitadas mais status demonstravam, assim como usar mais camadas de roupas demonstrava que a mulher era ociosa e tinha uma criada para ajudá-la a se vestir. 

Vestido


    Finalmente, a peça que chama a nossa atenção logo de cara. Usualmente consistia em duas peças separadas, o corpete e a saia. Também era comum que a mesma saia tivesse dois corpetes diferentes, um para ser usado de dia e um para uso noturno (vestidos assim eram chamados de robe a la transformation). Haviam diversos tipos de vestido e cada um para uma ocasião distintas. Vestidos de passeio, de jantar, viagens, bailes...sem contar os trajes esportivos. 

Outwear e outros adereços 


  Como sobreposição haviam capas, jaquetas e xales para o frio. Outros acessórios que complementavam o visual eram tiaras, chapéus, luvas, cintos, broches, entre outros. Variar os acessórios sempre foi uma boa forma de dar uma cara nova a um visual repetido e as vitorianas seguiam isso.


    E assim temos um traje completo! Certamente não é possível abranger com detalhes a moda de décadas em apenas um post, a intenção foi apresentar de forma breve os principais itens que são necessários na recriação histórica e trazer algumas curiosidades sobre eles. Espero que tenham gostado e logo volto com a parte II, falando sobre a confecção dessas peças. 

Referências:

GOODMAN, Ruth. How to be a victorian. Londres: Penguin Books, 2014

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Muito antes da Vogue: as primeiras publicações de moda

Vogue, 1930s

    Hoje é possível encontrar uma infinidade de revistas dedicadas a falar sobre moda, seguimentadas por estilo, idade, geografia...as opções são inúmeras. Estão disponíveis em bancas de jornais, livrarias e até mesmo na internet. Mas como elas surgiram? Quais foram as primeiras? Como se popularizaram? Nesse artigo trago uma breve história das publicações de moda.

O início das publicações de moda: 


The Ladies Mercury. 1697

    As primeiras revistas de moda apareceram nas décadas de 1770 e 1780. Como a Lady's Magazine, um almanaque de novidades dedicado a damas que apresentava ilustrações de moda a partir de 1770 e a Journal dex Luxus und der Moden, que surgiu na década seguinte. Anterior a isso houveram outras tentativas também no século XVIII: a Courrier  des Nouvellistes (1728) e a Journal du Gôut, em 1768, que não eram periódicos regulares. Em 1785 surge o O Cabinet des Modes, com gravuras em cores e o Journal de la Mode du Goût, que depois passou a se chamar Journal  des Modes Nouvelles Françaises et Anglaises e foi famoso em toda a Europa, publicado até 1793.

    Até então as novidades sobre moda eram apresentadas em revistas de assuntos gerais como a The Ladies Mercury, no século XVII. Ela era como um spin-off do The Athenian Mercury e foi a primeira divulgação direcionada especificamente para mulheres, ficando em circulação apenas durante quatro semanas. Era escrita por um homem e falava sobre casamento, vestimenta entre outros assuntos, tudo em em duas laudas de texto.
Edição de Journal de La Mode du Goût de 1790

    Usar a moda como propaganda política não é uma novidade, e durante a revolução francesa publicações passaram a sugerir uma moda para os revolucionários. O próprio Journal de la Mode du Goût sugeria que as mulheres usassem as cores da bandeira da frança em suas roupas, para demonstrar patriotismo. 

As fashion plates:



Galerie des  Modes et Costumes Français

    O que ficou muito popular em revistas de moda são as fashion plates, ilustrações demonstrando os estilos, detalhes e materiais que estavam em voga. Essas ilustrações eram trocadas entre amigas e levadas em costureiras para serem reproduzidas. Facilitavam o acesso das mulheres de classe média e trabalhadora às novidades em relação à vestimenta, o que fez com que fosse mais rápido acompanhar as mudanças na moda.

    Ao longo do século XVIII vários ilustradores se especializam em registrar a moda, como Gravelot, Moreau le Jeune, Desrais, Le Clerc entre outros. Essas ilustrações eram publicadas em revistas, que até então não contavam com a fotografia. Nessa área, a Galerie des  Modes et Costumes Français era uma referência, com uma série de 500 fashion plates ilustrando a moda entre 1778 e 1787.

O crescimento das revistas:

      A partir de 1815 as publicações de moda se multiplicam e vários outros nomes começam a surgir e consequentemente as mudanças em silhueta passaram a ser cada vez mais frequentes, já que temos aí a consolidação do sistema da moda como conhecemos hoje.

    No século XIX as revistas femininas tiveram um papel importante, visto que auxiliavam na educação das mulheres. Uma revista expressiva nos Estados Unidos era a Godey's Lady's Books, publicada de 1830 a 1878, que era a mais popular na época. Bem conhecida por suas fashion plates coloridas, a revista também apresentava moldes para as mulheres reproduzirem os vestidos em casa.

Englishwoman's Domestic Magazine

    Havia também a Englishwoman's Domestic Magazine, direcionada a mulheres de classe média que faziam a maior parte de seus afazeres domésticos. Com colunas sobre culinária, animais de estimação e, principalmente, moda. A partir de 1860 as edições vinham com ilustrações coloridas e moldes.

    A Ladies Magazine, publicada entre 1828 e 1837 foi a primeira revista a ter uma mulher como editora, a Sarah Josepha Hale, mulher influente na época. Revistas de moda masculinas surgiram somente em 1920, coma  Der Herr, revista alemã. 

Da era vitoriana ao presente, revistas que viajaram no tempo: 

    Das revistas que ainda estão em circulação, podemos citar a Hapers Bazaar. Iniciada em 1867, se descrevia como "Um receptáculo de moda, deleite e instrução", e seguindo o padrão da época também publicava literatura, tendo em suas edições textos de Charles Dickens, Henry James entre outros grandes escritores. 


     Provavelmente a revista de moda mais conhecida no mundo, a Vogue teve sua primeira publicação em 1892 nos Estados Unidos, e durante a I Guerra Mundial passa a ser impressa na Europa, com uma edição inglesa e francesa nos anos seguintes. A ascensão da Vogue durante o século XX daria um post inteiro, mas basta dizer que hoje é uma das revistas que mais influenciam o mercado da moda e apresenta grandes profissionais da área. 

    Publicações de moda da época são uma boa fonte de pesquisa sobre moda e estilo de vida das mulheres. Muitas delas podem ser encontrada em sites com publicações em domínio público, como o Archive.org e o Google Books. Mas é necessário levar em consideração que os modelos apresentados ali são idealizados e não necessariamente representam a realidade, da mesmas forma que as revistas atuais contém propostas de tendência mas não são um retrato fiel do que é usado nas ruas. Ainda assim, são ferramentas bem interessantes para estudar história da moda e sua relação com os costumes da época. 

Bibliografia: 

História da moda no ocidente, François Boucher
Moda: uma filosofia, Lars Svendsen
Journal de la mode et du Gôut (1790)
The American Ladie's Magazine (1828)
A Modista do Desterro: A moda na revolução francesa
Atelier Nostalgia: Inspiration - Journal de la mode et du goût
Hapers Bazaar: History of Hapers Bazaar
The Guardian: Zeal and softness
Vogue: History
Wikipedia: The Ladies Mercury

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Review: Corsets históricos da Josette Blanchard

   Seguindo a proposta de falar sobre marcas alternativas nacionais, hoje o post é sobre a Josette Blanchard. Eu já havia falado sobre um corset histórico da Josette Blanchard aqui no blog, mas hoje falo um pouco mais sobre a marca, além de comentar um dos modelos de corsets históricos do catálogo. 

Josette Blanchard 


    Com quase 10 anos de história, a Josette Blanchard é um ateliê focado em corsets e figurinos, tendo se especializado na costura histórica e réplicas. Atualmente o ateliê está em São Paulo e trabalham principalmente com produtos sob encomenda, que podem também serem feitas pela internet. À frente da marca está Melissa Vargas, que é quem confecciona os produtos, atende clientes e até mesmo fotografa as peças para o catálogo. Ela é formada em História da Moda e também utiliza trajes de épocas em eventos revivalistas. 

Produtos:

Melissa, a dona da marca, usando uma criação própria

    O carro forte da Josette Blanchard são os figurinos, que podem ser históricos, fantasia, cosplay ou até mesmo noivas. O catálogo de corsets é realmente amplo e tem dezenas de modelos, tanto para tight lacing, quanto para compor figurino ou uso fashion. 

Réplica de um figurino de coelhinha da Playboy

    No site existe um catálogo com modelos disponíveis, mas por ser sob encomenda você pode contatar a marca e solicitar orçamento de algo novo. Cada figurino na  Josette Blanchard é único e eu acho essa proposta de exclusividade bem interessante. 

Feedback e review:


    Eu tenho várias peças da marca, meu primeiro corset mesmo encomendei em 2012. Para mim o principal diferencial dela é justamente essa especialização em história da moda, as peças históricas são realmente bem feitas e acuradas e diria que são uma referência na área. A modelagem é um primor e a Melissa é sempre muito atenciosa no atendimento. Josette Blanchard é uma marca cuja evolução ao longo dos anos é notável e estou sempre me surpreendendo com as peças. 


    Minha última foi esse corset vitoriano midbust que é uma réplica de um modelo de 1876. Eu sou apaixonada por corsets vitorianos e esse modelo era um sonho de consumo. E ele é perfeito! A modelagem segue o padrão da época mas de uma forma que se adapte a corpos modernos, por exemplo: ele possui um busk mais maleável para que a barriga tenha essa curva bem comum em corsets da época.
Fotos do processo, que foram postadas no instagram da marca

    Eu queria destacar também o bordado, que também foi feito pela Melissa e consome uma boa parte do tempo de produção desse corset. Definitivamente é uma peça especial e é a que tem a confecção mais longa do atelier.

    Josette Blanchard uma das minhas marcas preferidas no mercado nacional e recomendo a todos que procuram algo único, artesanal e de qualidade, seja para usar no dia a dia ou em ocasiões espciais. 

Recomendação de leitura: 
E essas mulheres que se apertavam em corsets? 
O bordado na era vitoriana