segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Desafio de Costura Histórica 2021

 

  Vamos costurar juntos em 2021? Desafios de costura histórica são uma ótima forma de estimular a criatividade, confraternizar com pessoas com gosto em comum e desenvolver habilidades. No campo da costura histórica ele não é uma novidade, em 2012 a Leimomi lançou um em seu blog. Eu participo desde 2014, você pode ver minhas entradas nesse marcador aqui

  A ideia do desafio é propor temas e deixar aberto para quem se interessa por costura histórica reproduzir suas peças e ir trocando figurinhas ao longo do processo. Aqui, consideramos como costura histórica a reprodução ou inspiração nas modas de períodos anteriores a 1970. Vale acessórios, roupas completas, costura, tricô, bordado...a ideia é explorar.  

 Como Funciona: 

Todo mês as três anfitriãs divulgarão em seus blogs algumas ideias para você se inspirar para o próximo desafio.

Você pode mostrar seu trabalho num blog, no seu canal ou no seu instagram. É só marcar a hashtag do evento (#dchBR2020) e a hashtag de cada desafio (confira a lista abaixo) e postar as fotos do seu projeto com as seguintes informações:

*Desafio

*Materiais usados

*Molde (usou um molde pronto, de um livro ou feito por você?)

*Data aproximada da peça de referência

*Quanto tempo você levou nessa peça

*Quando planeja usar

*Como foi feito (à mão, à máquina, técnicas históricas, etc)

*Custos aproximados do projeto

Os desafios:

 

Janeiro – Roupa íntima | #DCH2021JANEIRO

A roupa íntima é a base de toda roupa histórica, então nada melhor do que começar por ela, né? Chemises, calçolas, meias, jarreteiras, corset-cover, anáguas… aqui vale tudo!

Fevereiro – Silhueta | #DCH2021FEVEREIRO

Toda época tem uma silhueta característica. Algumas silhuetas são construídas com peças estofadas (pense em suportes de mangas e almofadinhas vitorianas, por exemplo) e armações (crinolinas, paniers, merinaques), mas outras são marcadas com cintos e faixas. Qualquer peça que seja usada para criar a silhueta de um determinado período é bem-vinda aqui

Março – Bolsas pra que te quero! | #DCH2021MARCO

Bolsas e bolsos são parte da experiência humana em todas as épocas. Para esse desafio, escolha uma peça de qualquer tipo – pode ser algo muito chique como um bolso bordado ou a simples bolsa de couro usada por um peregrino medieval – que sirva para guardar objetos dentro dela.

Abril – Acessórios de cabeça | #DCH2021ABRIL

A gente sempre pensa em chapéus, mas a cabeça humana já foi coberta e decorada com uma série de coisas: toucas, véus, tiaras, presilhas, fitas… Então que tal produzir um acessório de cabeça da época de sua preferência?

Maio – Gambiarra | #DCH2021MAIO

Nem sempre a gente consegue os materiais da época ou até aquilo que é usado pelo povo da costura histórica na gringa. Nessas horas entra em ação o super poder brasileiro da GAMBIARRA, ou, como a gente gosta de chamar por aqui, LOGÍSTICA CRIATIVA. Nesse desafio a gente solta a criatividade e a capacidade de inovar, fazendo peças históricas com materiais totalmente alternativos e fora do que é usado normalmente.

Junho – Desafio de Cor: Vermelho | #DCH2021JUNHO

Junho, mês dos namorados, o amor está no ar… Então que tal criar uma peça histórica, de qualquer tipo, usando vermelho?

Julho – Inverno | #DCH2021JULHO

Sabe aquela peça quentinha que você sempre quis e que provavelmente dá pra usar até no dia-a-dia. Esse é o desafio para você produzir uma peça de inverno. Não precisa ser inverno europeu: pense em algo que seria adaptado à temperatura de inverno da sua região.

 Agosto – Parte de cima | #DCH2021AGOSTO

Hora de vestir a parte de cima do corpo. Pode ser uma peça que faça parte de um conjunto (um corpete, por exemplo) ou uma peça única (uma camisa, digamos). O importante é vestir o tronco.

Setembro – Parte de baixo | #DCH2021SETEMBRO

Agora vamos para as pernas. Pode ser uma peça que faça parte de um conjunto ou uma peça única. Mas esses dois desafios (agosto e setembro) podem ser uma boa oportunidade para você fazer seu primeiro traje, com peças coringa que depois possam ser usadas com outras combinações.

Outubro – Desafio: Fantasias de inspiração histórica | #DCH2021OUTUBRO

Hora de soltar toda a sua criatividade: Fantasia de personagem histórico, versão histórica de personagens fictícios, mashups históricos em cosplays… o céu é o limite! Nesse desafio você pode fazer um traje completo, se estiver se sentindo particularmente ousado, mas também pode fazer apenas uma peça.

Novembro – Desafio do Metro | #DCH2021NOVEMBRO

O que você consegue fazer com no máximo 1 metro de tecido? Esse é o desafio perfeito para você criar um pequeno projeto relaxante e econômico, reutilizando materiais que você já tenha em casa.

Dezembro – UFOs (unfinished objects/ objetos não terminados) | #DCH2021DEZEMBRO

Todo mundo tem um projeto que ficou pelo meio do caminho, por falta de tempo ou de paciência. Então, que tal fechar o ano com aquele sentimento de satisfação e finalizar esse UFO?

Blogs anfitriões: 

A Modista do Desterro 

Merlim Crafts 

Como vai funcionar por aqui: 



No blog: descrição dos meus projetos finalizados junto da ficha dos mesmos, ao fim de cada mês.

No Instagram: fotos do processo, compartilhamento de inspirações para cada tema e de projetos de outros participantes

No Twitter: threads com inspirações de cada tema e links de referência para cada mês 

Não se esqueçam de comentar com seus links caso pretendam participar! E usem as hashtags nas redes sociais, (#dchBR2020 e a específica de cada) E podem me marcar, viu? A ideia é realmente interagir ;)

Ansiosa pra ver as criações de vocês. 

Participantes: 

Merlim Crafts

A Modista do Desterro

Vic Trindade 

Tupá Guerra/ Dra. Demodé

Lales Cantarelli / Retrós Histórico

Stephany Krause

sábado, 14 de novembro de 2020

Tutorial: inserção de renda

 Inserção de renda - ou lacing insertions em inglês - é uma técnica de costura muito presente em peças pelo menos desde o século XVI, e que até hoje vem sendo usado. É uma decoração em renda comumente feita num tecido de algodão, que deixa o tecido vazado embaixo, trazendo refinamento e transparência a uma peça.

chemise elizabetana

   Na Era Elizabetana e Renascimento, esse detalhe aparece principalmente em chemises, nas roupas de baixo de classes mais abastadas. 

roupas de baixo vitorianas

   É no fim do século XIX que as inserções se tornam cada vez mais comum, com desenhos cada vez mais intrincados. Aqui, elas estão decorando peças de baixo como combinações, corset covers, e anáguas.

roupas eduardianas

Já no início do século XX ela passa a aparecer também nas roupas externas, como em camisas e tecidos de verão. 

O tutorial que fiz é em vídeo e você pode conferir abaixo:

   

Para mais vídeos, se inscreva no meu canal do youtube

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Filme: Emma. (2020)

Emma (2020)

    Um dos filmes mais esperados esse ano pela comunidade de costura histórica e revivalismo, Emma. (sim, com um ponto final no título) estreou pouco antes do estouro da epidemia que estamos vivendo e tenho a impressão que isso ofuscou discussões sobre o filme, o que acho uma pena, porque até então é um dos meus preferidos que assisti esse ano e resolvi fazer uma resenha e, claro, trazer uma breve análise do figurino e spoiler: ele está soberbo!

O enredo: 

    Emma é mais uma sátira social de Jane Austen, célebre escritora do início do século XIX. A personagem principal é descrita como bonita, inteligente, esperta e adorada por todos. Sem grandes ocupações, sua única responsabilidade é com seu pai e ela ocupa o resto de seu tempo arranjando casamentos e fazendo passeios com sua amiga Harriet Smith, que mesmo numa posição social dita como inferior é muito querida à Emma. Um outro amigo muito presente é Mr. Knightley, amigo da família que visita a casa com frequência e faz as vezes de grilo falante, repreendendo as más atitudes de Emma Woodhouse.

Personagens do filme Emma

    A história então se desenrola em meio a jantares, bailes e visitas, onde vemos que tentar interferir na vida das pessoas é sempre uma péssima ideia, e, claro, que as aparências enganam. É uma história cheia de intrigas amorosas e personagens (que são diversos e interessantes, como costumeiro nas obras de Austen), no filme fica até difícil acompanhar todos. 

   É um filme feito de forma primorosa, com um design de produção incrível, uma trilha sonora divertida e atuações convincentes. Carrega o humor e romance típico das obras da Jane Austen sem deixar de lado a crítica social aos valores da época. Em relação ao roteiro, diria que ele é bem conduzido e não sentimos o tempo passar, mas apesar disso, creio que o desenvolvimento do caráter de Emma acabou sendo deixado um pouco de lado. Uma personagem que foi escrita para ser detestada no início e adorada no final não teve uma rendição muito bem mostrada.

O figurino:

    O figurino é algo que precisa ser comentado a parte, porque ele tá simplesmente incrível! 

Emma e Mr. Knightley durante o baile

   Emma. retrata bem as principais características da moda da época (1810-1820), que eram os vestidos leves, a cintura elevada, o uso de sobreposições... o que já estamos acostumados a ver nas adaptações de Jane Austen, mas algo interessante nesse filme é que ele se passa em várias estações do ano, mostrando como as roupas variavam de acordo com o clima. 

Emma e Harriet

    Por se tratar de uma história contada por meio de situações corriqueiras da vida de uma pequena comunidade, vemos os personagens em diversas situações sociais como jantares, bailes e missas, então é possível observar a variedade que havia no vestuário de uma mesma época, com diferença até mesmo entre classes sociais - o que é importante, considerando que na maior parte das vezes só vemos retratadas as vestimentas das classes mais abastadas.


    É notável como o figurino é tão bem pesquisado que vemos até mesmo réplica de peças de museus! Essa acima, por exemplo, é uma réplica de um exemplar que está no Victoria and Albert Museum. Existem outras peças que são inspiradas em itens históricos, e eu achei bem divertido tentar ir identificando quais eram essas réplicas. 


    Eu também fiquei encantada em ver lojas de tecidos, provas de roupas, as combinações conforme as peças do guarda roupa eram reutilizadas...ficou algo bem rico e verossímil, afinal é bem interessante ver como a moda funcionava nesse aspecto.

Mr. Knigtley se arrumando

    E algo incomum que vemos logo na abertura é a arrumação masculina, mostrando as camadas que eram utilizadas pelos cavalheiros. A demonstração fica a cargo de Mr. Knightley, que é um representante do cavalheiro ideal da regência. 

Considerações finais:

    Emma. é não apenas uma ótima adaptação do clássico da literatura como um bom filme de época per se, recomendadíssimo pra quem procura uma história bem humorada de forma inteligente, e com certeza uma boa fonte de inspiração pra quem aprecia a moda do período regencial. Acredito que ficará como uma referência no gênero. 

    Por hoje é só, logo mais apareço com mais resenhas de filmes de época e meus projetos pessoais de figurino. Pra quem quiser saber mais sobre a moda da época, recomendo esse outro post aqui do blog:


Até mais! 

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A moda esportiva no século XIX

Le Chalet du cycle au bois de Boulogne

    Da mesma forma que o que vestimos hoje numa reunião de trabalho é diferente do que utilizamos em uma festa ou na academia, o mesmo era aplicado durante a Era Vitoriana. Nesse período podemos ver a formação de distinções bem rigorosas entre as roupas dependendo da hora e da circunstância, e errar na escolha poderia ser considerado uma falta de decoro. Ainda sim, muito se fala sobre a diferença entre vestidos diurnos e noturnos mas pouco sobre o que era utilizada durante as práticas esportivas na era vitoriana. Então esse é o tema do post de hoje ;)


Os lazeres vitorianos durante a segunda metade do século XIX

   Antes de começarmos a falar sobre a moda é necessário situá-la em seu contexto histórico. O que muda na sociedade para que seja necessário o uso de roupas esportivas? 
    Parte da resposta está na Revolução Industrial. As inovações tecnológicas da época tiveram inúmeros efeitos na sociedade mas iremos nos ater a dois: a noção de tempo livre e a evolução dos transportes.
    As jornadas de trabalho em fábricas e indústrias eram extremamente exaustivas e o trabalho consumia boa parte do tempo da classe trabalhadora. Surgem então reivindicações para que haja mais tempo de descanso para os funcionários. O “tempo livre” é uma das invenções mais representativas da revolução industrial.


“De fato, na sociedade industrial o tempo de trabalho é central, e assume intensidade e ritmos dificilmente suportáveis para os trabalhadores; é por isso que surge e toma corpo o tempo livre, assim como é concebido ainda hoje: um tempo em que cada um pode dedicar-se - conforme as próprias aspirações e fora das necessidades e obrigações profissionais, familiares e sociais - a diferentes atividades para descansar, divertir-se e enriquecer a própria personalidade.” Daniela Calanca.

    É no decorrer da  segunda metade do século que o conceito de férias - uma mudança necessária das atividades do dia a dia -  é implantado. A partir de 1870 a burguesia passa a imitar os hábitos aristocráticos de passar uma temporada fora durante o verão e parte do outono, ou pelo menos ir para o campo durante os fins de semana. O esporte é então visto como um sinônimo de progresso,velocidade e aperfeiçoamento. 
   O desenvolvimento dos meios de transporte transforma a experiência de viagens, e consequentemente, de férias. Os trens diminuem o tempo de deslocamento até praias , tornando esse tipo de passeio mais frequente. 
   Numa sociedade em que a forma de se vestir mudava de acordo com a ocasião, o vestuário se adapta ao estilo de vida e segue o mesmo caminho, e então surgem roupas para atividades mais específicas, como o esporte. 

O início das roupas esportivas
exercícios físicos vitorianos
    Historicamente atividades físicas eram algo desencorajado para mulheres por acreditar-se que poderiam atrapalhar na fertilidade. Mas então a dita 'fragilidade feminina' passou a ser um problema a ser resolvido com exercícios leves que melhorassem a saúde, e vários doutores passam a indicar caminhadas, longas e calmas. A Cassel's Househood Guide - uma revista feminina - inclusive publica um guia de exercícios para mulheres, que consistem basicamente em exercícios de calistenia.
   A vestimenta indicada incluía bloomers no comprimento dos tornozelos, uma camisa folgada e uma saia curta, abaixo dos joelhos. Algodão era o tecido mais indicado e o uso do espartilho desencorajado, mas uma faixa drapeada (sash) era amarrada na cintura para marcar a silhueta. Tornar o conjunto feminino e bonito era uma tentativa de contornar a resistência das garotas em fazer exercícios e parecer estranha por isso.

esportes femininos vitorianos

    O arco e flecha e croquete foram uns dos primeiros esportes amplamente aceitos para mulheres. Não envolviam muito movimento do corpo e nem roupas especiais ou que seriam consideradas impróprias. O croquete por exemplo poderia ser jogado mesmo com o uso de crinolinas e corsets, e começou a ficar mais pular no fim de 1860s. 

O Traje de montaria 

trajes de montaria vitorianos

    Os vitorianos adoravam cavalos e estes eram utilizados desde o início do século XIX para lazer e transporte. Mas enquanto homens estavam sempre prontos para montar em celas, as mulheres necessitavam de vestimenta especial.
     Apesar de se assemelharem aos vestidos diurnos, os vestidos de montaria costumavam ser compostos de casacas, coletes, camisas brancas e cartolas, imitando a moda masculina. Tecidos em tons escuros eram o ideal e as peças não eram muito enfeitadas. Trajes de montarias mais elaborados  eram reservados para ocasiões especiais como caçadas e passeios em parques da cidade. Uma observação interessante pode ser feita sobre o comprimento das saias, que eram mais longas que o comum para que formasse um drapeado na montaria, e por dentro da barra era utilizado uma faixa de couro para proteger o tecido do atrito. Apesar disso, dispensava-se anáguas e podiam ser utilizadas calções por baixo da saia, no mesmo material do restante do vestido. O corpete era ajustado no corpo mas com as mangas mais soltas, para não restringir movimentos. O uso de botas e luvas de couro era indispensável. 

Vestidos de tênis

vestidos de tênis vitorianos

    O tênis foi um jogo inventado em 1860s por um oficial do exército chamado Walter Wingfield e o esporte foi patenteado em 1874, se tornando bem popular entre as mulheres, que jogavam em festas em jardins ou clubes.

"As primeiras garotas a jogar o recém criado tênis vestiam seus mais estilosos vestidos diurnos - sem crinolinas, que já estavam fora da moda, mas fortemente espartilhadas e com longas, drapeadas saias, presas para cima nas costas afim de formar anquinhas." Ruth Goodman

   Inicialmente, a vestimenta utilizada eram os vestidos diurnos, com todas as suas camadas. É na década de 1880s que roupas desenhadas especialmente para situações esportivas se tornam algo comum em revistas de moda e seus anúncios. As mudanças nesse tipo de vestuário incluíam um comprimento ligeiramente mais curto das saias e chapéus menores. 
    No tênis era comum usar um avental nas partidas para proteger o vestido de sujeiras. Em 1890s os cinturões suíços estão em voga e seu uso é indicado em detrimento do espartilho, por ser uma peça menos restritiva. A peça promovia mobilidade sem comprometer a estética da cintura fina que era popular na época. É também nessa década que revistas começam a apresentar modelos de vestidos feitos especificamente para serem usados em partidas de tênis.
    Uma padronagem comum nesses trajes eram as listras e xadrezes, e em relação a cores era preferível as claras como branco, creme e bege. Na década de 1890s as roupas passam a ser ainda mais confortáveis, com o uso de espartilhos adaptados para a prática de esporte. 

Trajes para patinação

vestidos de patinação vitorianos

    A patinação no gelo já existia há milhares de anos, mas foi na era vitoriana que se tornou um favorito. No inverno, pistas de patinação no gelo eram montadas em lugares públicos como lazer para a população. O esporte se tornou extremamente popular entre a elite inglesa, se tornando um evento social e consequentemente gerando a necessidade trajes adequados não só do ponto de vista funcional mas também do estético. 
  A primeira adaptação é o comprimento das saias, que costumam ser na altura dos tornozelos e usadas sobre anáguas acolchoadas. Cores vibrantes são as preferidas e observa-se também um maior uso da lã e tecidos acolchoados, frequentemente decorados com pele nas extremidades. Um acessório típico é o muffin, para esquentar as mãos. 

Trajes de banho

moda praia vitoriana
    Na Europa, a exploração da água como lazer surge no início do século XIX, e o primeiro estabelecimento de banho de mar é fundado por Dieppe em 1822. "As águas são para o verão o que os salões são para o inverno", diz o Jornal de Las Dames junho de 1846. No século XIX praticamente metade da população tinha meios de passar um feriado em alguma praia. E com isso, surge a demanda de roupas mais adequadas para os banhos de mar. 
   O traje de banho consistia de vestido e calçolas; o conjunto geralmente era feito no mesmo tecido e possuía decorações em cores contrasteantes. O espartilho para banho é desenvolvido para deixar mulheres que estavam acostumadas a usar roupas justas mais confortáveis em seus trajes de banho, que geralmente consistiam de peças soltas e largas. Boa parte das vezes essas roupas eram mais uma desculpa para usar trajes elegantes e diferentes pelas famílias que estavam viajando, mas também cumpriam sua função como roupas esportivas. Já escrevi um post especificamente sobre eles aqui no blog.

Traje de ciclismo 


roupas de ciclista vitorianas

    Andar de bicicleta com as saias e anáguas comuns era uma tarefa praticamente impossível, e quando ouve o boom da atividade em 1890s, junto vieram várias patentes de peças do vestuário desenvolvidas exclusivamente para o ciclismo. O esporte acaba se tornando um pretexto para a criação de roupas extravagantes, o que atrai críticas e caricaturas.
    O comprimento das saias era nitidamente menor, e algumas até mesmo possuíam cordões para que as mesmas pudessem ser franzidas até acima do joelho. Polainas eram utilizadas para proteger as botas. Uma grande característica das roupas de ciclismo são as mangas extremamente volumosas, e o uso de casacos com fortes referências na alfaiataria. Para climas mais amenos, haviam suéteres e camisas que seguiam as mesmas características. Também é a prática de ciclismo que ajuda a popularizar o uso de calças entre mulheres com os bloomers, que eram bermudas bem volumosas e compridas inventadas por Amelia em 1840, mas até então considerada uma peça controversa e não muito popular.  

   No fim do século XIX o desenvolvimento do transporte culmina na invenção do automóvel, o que novamente gera demanda para um vestuário específico, com o costume de usar véus e guarda-pós na viagem. No século XX as mulheres começam gradualmente a participar das Olimpíadas e a presença feminina no esporte é consideravelmente maior, mas aí já é assunto para outro post, certo?

Referências bibliográficas:
História da vida privada,Georges Duby e Philippe Ariès

How to be a victorian, Ruth Goodman
História social da moda, Daniela Calanga
Moda uma filosofia, Lars Svendsen *

*links afiliados 

terça-feira, 24 de março de 2020

Por onde começar minha pesquisa sobre história da moda?

    


    Frequentemente me pedem indicações de livros sobre história da moda ou para recriação histórica, e depois de tanto passar essas informações por mensagens, resolvi reunir aqui os meus preferidos para quem quer fazer trajes históricos, estudar sobre história da moda e coisas afins. São obras que eu vivo consultando, seja para as pesquisas que faço aqui pros artigos do blog ou para confeccionar meus trajes. Deixo também o link* de onde encontrar esses livros para comprar ou baixar. Trago primeiramente livros mais abrangentes para quem está está procurando títulos para começar a se aventurar e ao final livros mais específicos, para os que gostam de esmiuçar determinados temas. Essa lista estará em constante atualização, viu?


A Roupa e a Moda - James Laver 

   É uma boa pedida pra quem tá começando pois, como o próprio subtítulo diz, é uma história concisa. Nele você vai encontrar descrições das principais silhuetas ao longo da história, de forma prática e ilustrada. A escrita também é agradável e não é excessivamente vaga, apesar de ser mais generalista. Pode ser encontrado aqui

Moda: uma filosofia - Lars Svendsen 


    Esse é para aqueles se interessam mais pelo campo da história social da moda. Lars é um filósofo que apresenta um panorama da história da moda relacionando-a com linguagem, corpo, arte, consumo e outros. Uma obra interessantíssimas para repensar a moda para além de simplesmente peças de roupas. Pra quem quiser conhecer mais, trouxe alguns comentários nesse post aqui no blog.Também pode ser comprado em edições físicas e cópias virtuais

História do Vestuário no Ocidente - François Boucher 

    Com cerca de 500 páginas coloridas num formato A4, é definitivamente um dos livros mais completos sobre o assunto, e trata desde o que ainda chamamos de indumentária, lá na antiguidade, até a moda das passarelas da década de 1980. Outro ponto interessante é a apresentação dos estilos em variadas regiões de forma individual, ao invés de generalizar toda a Europa, por exemplo. Por ser da finada Cosac Naify é uma edição esgotada, mas encontram-se cópias usadas na Estante Virtual e Amazon

Patterns of fashion - Janet Arnold 



    Para você que busca acurácia história essa série de livros é um prato cheio! Nele além de moldes - traçados a partir de peças de museus - desenhados em escala, são apresentados descrições dos materiais utilizados nos modelos e desenhos mostrando detalhes da parte interna e acabamentos utilizados. As edições que recomendo são a número 1 (1660-1860)2 (18860-1940) e 3 (1560-1620)

The cut of woman's clothes - Norah Waugh 

   Uma opção mais generalista para reconstrução histórica, nele são apresentados breves descrições da moda do período, materiais utilizados e molde das roupas, tiradas a partir de peças de museus, abrangendo as silhuetas entre 1600 e 1900s. É um dos livros que sempre dou uma consultada em minhas pesquisas. Pode ser encontrado aqui.Também existe a versão masculina, a The cut of men's clothes

História do Vestuário - Carl Kohler

    Um dos únicos dessa lista que aborda a antiguidade, também trás diagramas de algumas peças, além de extensas descrições sobre os estilos usados por homens e mulheres em diversos lugares. Não é o que mais utilizo, mas definitivamente recomendaria pare se ter à mão. Para quem quiser a cópia física em português, pode encontrá-la aqui, mas a versão em pdf também está disponível de forma gratuita aqui, em inglês.

The History of Underclothes
- C. Willett Cunnington


    É sabido que um traje histórico é construído de dentro pra fora, e estudar as peças de baixo que formam a estrutura e silhuetas das roupas é essencial pra isso. Para quem quer se aprofundar mais no assunto, The History of Underclothes é uma ótima opção. O que me chama a atenção é que além de traçar uma linha do tempo do que era utilizado, é descrito como essas peças realçavam determinadas partes do corpo, visto que o interesse mudava conforme a época. Em cópias físicas e digitais.

Costume in detail - Nancy Bradfield
    Um dos livros mais novos em minha coleção, mas já considero um dos favoritos e super indico! Ele é bem direto: Ilustrações e descrições breves das roupas femininas entre 1760 e 1930. O que eu adoro nele são as medidas de alguns detalhes das peças, os desenhos das peças internas...um prato cheio para quem quer reconstruir roupas de outras épocas da forma mais historicamente correta possível. 

Tecidos: história, tramas, tipos e usos - Dinah Maria Pezzolo

    Para quem quer costurar, um entendimento dos tecidos é essencial, e essa é uma ótima opção para saber mais sobre o assunto. Gosto de como ele aborda tanto a história de cada fibra e como ela foi utilizada ao longo da história e trás também as principais características de cada um deles e como utilizá-los. Pode ser comprado na Amazon, mas caso você seja ex-aluno Senac o site da editora oferece um desconto. 


18th Century Dressmaking - Lauren Stowell e Abby Cox

    Entrando no campo dos livros mais específicos, esse trata só sobre técnicas de costura do século XVIII. Traz diagramas e processo de construção de vários trajes e acessórios, não só no estilo da alta sociedade francesa mas abordando outras classes sociais e nacionalidades. Lauren e Abby são figurinhas conhecidas na comunidade de recriação histórica e sabem do que estão falando. Em cópias digitais e físicas

How to be a Victorian - Ruth Goodman



    Esse aqui é um pouco mais teórico, o foco dele é mostrar como era o dia a dia das pessoas durante a era vitoriana, escrito pela  Ruth Goodman, que é uma especialista em recriação histórica. Entre os assuntos abordados estão desde passatempos, atividades cotidianas até questões bem específica sobre sexo e festividades, por exemplo. Em relação à moda, encontram-se descrições sobre o processo de se vestir e o tipo de roupa que era utilizado em cada ocasião. Uma boa pedida para os que gostam da Era Vitoriana e querem conhecer mais a fundo. É possível encontrá-lo em e-book e em versão física

Para vestir a cena contemporânea - Século XVIII - Fausto Viana e Isabel C. Italiano


    Ainda sobre século XVIII, o livro de Fausto e Isabel é uma ótima opção em língua portuguesa. Trás tanto a pesquisa e descrições sobre os diversos estilos da época como também questões mais técnicas de costura, abordando trajes femininos e masculinos. Com imagens detalhadas de como costurar cada uma das peças e também diagramas de moldes, a melhor parte é: está disponível gratuitamente em PDF. Para acessar só clicar aqui

The Medieval Tailor's Assistant - Sarah Thursfield 

    Para os que querem se aventurar pela idade média, esse livro conta com mais de duzentas páginas sobre técnicas de costura e acabamento e moldes de diversas roupas e acessórios utilizados por homens e mulheres durante a era medieval,além de extensas descrições sobre a moda da época .Compensa comprar a versão digital aqui

The Tudor Tailor - Ninya Mikhaila e Jane Malcolm-Davies



    Na mesma linha, de livros escritos por especialistas em reconstrução histórica temos o The Tudor Taylor, que trata especificamente sobre as técnicas de costura do período Tudor, que aconteceu entre 1485 e 1603 na Inglaterra. O livro mostra diagrama e técnicas de costura de peças de baixo até mesmo acessórios, abordando várias classes sociais e os dois gêneros. Disponível aqui

    Bom, esses são os principais livros que eu indico, dentre as inúmeras opções para quem pesquisa esses assuntos. Mas ainda assim caso queria tirar alguma dúvida em sua pesquisa e acha que eu posso te ajudar com indicação de alguma bibliografia não hesite em me contatar no julianalopesmf@gmail.com

    Até a próxima! 

Leitura recomendada: 

Como começar na recriação histórica

*parte dos links são afiliados, o que significa que eu ganho uma pequena comissão na compra. Você não paga nada a mais por isso e me ajuda a continuar criando conteúdo de qualidade. Garanto que só indiquei livros que realmente uso e sempre falei sobre.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Ensaio fotográfico: Boudoir histórico

 

     Por baixo desses trajes que vocês costumam ver por aqui sempre tem um conjunto das ditas 'imencionáveis', afinal um traje histórico é construído de dentro pra fora. Em conversas com outras amigas da costura histórica vez ou outra soltamos que é uma pena que essas peças nunca sejam vistas, até que ano passado resolvemos mudar isso e fizemos um ensaio boudoir, mas com lingerie histórica. 

     Para isso eu separei dois conjuntos, um vitoriano tardio (1890s) e um com uma proposta mais pinup, seguindo o estilo de 1950s. As fotos foram tiradas no Estúdio Elemento D, por Gabriela Vieira, Raquel Souza e Cissa Rufini. 

Vitoriano Tardio - 1890s

      Para esse conjunto eu me inspirei fortemente no horror vitoriano, eu queria algo que causasse uma impressão forte. Era raríssimo encontrar peças de baixo que fossem assim escuras, elas costumavam ser brancas não só por higiene mas para representar pureza, demonstrar status... Uma lingerie em cores fortes certamente seria uma escolha ousada no século XIX e definitivamente uma peça feita para ser vista, assim como um corset em tecido nobre e enfeitado com rendas. O conjunto de camisole e calçolas foram feitos por mim e o corset é da Josette Blanchard. 

     Na fotografia, a ideia foi referenciar post cards da época (se engana quem pensa que a era vitoriana era completamente puritana!), que foram as precursoras da pinup.

Por Gabriela Vieira:







Retrô 1950s

    Para o conjunto retrô, a ideia foi seguir pela estética pinup, com uma proposta mais romântica mas com um quê de vaidade. Eu particularmente gostei de imaginar que era uma mulher esperando o marido voltar da guerra mas sabendo se curtir enquanto isso, haha. Rendas, pérolas e excessos de tecido trouxeram a opulência que eu buscava em um conjunto cujo robe foi confeccionado por mim, ligas são da Satinè, corset da Josette Blanchard e conjunto de lingerie de uma loja de departamento.

Por Raquel Souza 








Por Cissa Rufini 






     Ter feito esse ensaio é algo que eu queria faz tempo e fiquei bem satisfeita com o resultado, espero que vocês também tenham gostado! Recomendo dar uma olhada nas páginas das fotógrafas pra ver mais sobre o trabalho delas, e pra quem se interessou pelas marcas que citei, algumas já escrevi sobre aqui no blog: Review da Josette Blanchard  e Post sobre a Satinè

Até a próxima!