Eu já tinha comentado aqui a minha intenção de fazer um traje de chá (ou tea gown) pro próximo evento do PVSP. E bem, esse evento já foi e agora é hora de falar sobre a confecção do meu traje, hehe. Dessa vez não vou me estender em vários posts como eu fiz com o de 1851 até porque o traje é bem simples.
Então vamos lá. Já aviso que farei o costumeiro pic spam, estejam preparados, haha.
Inspirações:
Eu estava basicamente procurando por trajes constituídos de um robe prático (o que aqui significa adaptável a outras épocas e situações), um vestido, e swiss waist, mas nada que fosse muito complicado ou caro porque o tempo era curto. Esses daqui foram os que mais me baseei pro modelo:
Vestido de 1891-92
1885
1891
1891
1890
1890
Underwear:
Como roupa de baixo usei o meu corset de 1890-95 ( e dessa vez ele não apareceu de forma anacrônica como da outra vez, hehe), as drawers e a anágua lisa do traje da Victoria. Eu não vi necessidade de fazer novas... Mas para sustentar o vestido fiz um bumpad:
Eu fiz esse bumpad na intuição porque vi praticamente nenhuma da época que eu estava me inspirando (1890-95).
Robe:
O robe foi feito em voal por motivos puramente econômicos, rs. E escolhi fazer ele com esses franzidos atrás e na frente para que o tecido possa ser reutilizado depois se houver necessidade. Era a peça que achei que daria mais trabalho porém foi até rápida de fazer e eu simplesmente amei o resultado e desisti da ideia de desmanchar pra reutilizar o tecido.
Vestido:
Pesquisando vi que ele poderia ser feito sem recorte na cintura e assim escolhi fazer pelo mesmo motivo do robe (economic Juliana mode: ON). Ele é quase um saco de batatas hahahahaha no decote é franzido com uma fita de cetim em um passa fitas, e a cintura fica marcada pelo swiss waist.
Swiss waist:
Eu ainda vou fazer um tutorial dessa peça, então não vou falar tanto sobre ele, mas eu fiz em tafetá e com forro em brim, e pra estruturar usei barbatanas de plástico. Edit: Tutorial
Acessórios e cabelo:
A foto mostra apenas o cabelo, mas eu ainda não tinha posto os acessórios
Para o cabelo eu me inspirei nos penteados padrão da época, porque penteados para chá mesmo eu quase não vi. A franja é "falsa", eu cacheei a parte da frente do meu cabelo (que fica a uns 5 dedos abaixo do ombro), com canudinhos (tutorial aqui), e prendi um pouco acima com grampos, pra que ela ficasse com um pouco de volume e não ficasse comprida demais. Eu acabei usando acessórios que já tinha, como as flores no cabelo, e colar, brinco e pulseira de camafeus.
Agora, fotos tiradas no dia, mostrando o resultado comigo usando:
Eu tinha visto Jane Eyre a muito tempo, pouco tempo depois que o filme lançou/saiu em DVD, e logo de cara amei! O figurino, a história, os atores, trilha...enfim, é um dos meus favoritos. Recentemente li o livro e resolvi rever o filme pra poder comparar melhor e resolvi falar sobre ele aqui. Sou péssima com sinopses, mas vamos lá:
O filme conta a história de Jane Eyre desde a sua infância. Jane é uma criança órfã que vive com sua tia e seus primos, porém ambos a tratam mal. Ela tem uma personalidade forte e é uma pessoa quieta e observadora, porém sua tia a tem como uma criança má e mal educada e a manda para um orfanato. Nesse orfanato Jane tem uma educação bem rigorosa e lá permanece até seus 18 anos (os últimos dois como professora), saindo de lá como uma moça bem educada.
Sempre almejando sua independência, Jane resolve trabalhar como preceptora na mansão de Edward Rochester, onde tem que educar Adele Varens, uma garota francesa que é sua protegida. Nessa mansão Jane precisa lidar com os modos estranhos e muitas vezes rudes do Sr. Rochester e também com um mistério acerca de uma moradora da mansão.
Figurino:
O figurino ficou por conta de Michael O'Connor (também responsável pelo figurino de The Duchess). O livro foi lançado em 1847 mas sua história se passa 10 anos antes, porém o Cary Fukunaga (diretor) achou que seria melhor fazer o figurino da década de 1840, pois nem ele nem o Michael gostavam da moda da década de 30. O próprio Fukunaga disse: "the clothing style of the '30s was just awful". E eu não posso discordar do Fukunaga e agradecer essa escolha porque também detesto essa década, haha. O figurino é um espetáculo a parte, e dá pra ver bem o contraste entre as roupas de trabalhadoras como a Jane e a governanta da casa (Sra. Fairfax) e pessoas mais ricas como a tia de Lady Ingram, por exemplo. Quem quiser conferir mais imagens do figurino pode ver aqui.
Jane à frente e Lady Ingram logo atrás.
Trilha Sonora:
A música ficou a cargo de Dario Marianelli (que também fez trilhas de outros filmes de época) e é belíssima e compensa a falta de diálogo em algumas cenas. Uma palhinha:
Diferença livro x filme e sua adaptação:
Apesar dos cortes sempre presentes em adaptações ( e nesse caso foram condensadas mais de 500 páginas em 2 horas), o filme é bem fiel ao livro e os cortes não comprometem a compreensão da história. Esta não ficou confusa no filme e ainda tem o mesmo "feeling" do livro. A escolha dos atores foi ótima, mas apesar de adorar o Edward Rochester do Fassbender, a personalidade dele acabou ficando um pouco diferente da do livro, no livro ele é mais enérgico e é bem feio (fato esse diga-se de passagem que é citado constantemente), e o Michael Fassbender pode ser tudo menos muito feio.
O Cary Fukunaga aproveitou o mistério do Sr. Rochester para dar um clima mais "terror" no filme, recomendo que vejam as cenas excluídas, algumas coisas são melhor explicadas ali.
Bem, é isso, não sei se alguém por aqui ainda não viu, mas de qualquer maneira fica a dica de um ótimo filme pra quem gosta de se inspirar nos figurinos e de um romance vitoriano com um quê feminista. ^^
Citações do livro (contem spoilers):
"Há verdade nas mais loucas fábulas" Edward Rochester
"Ele me fez amá-lo sem ao menos me olhar" Jane Eyre
"E é a você, mesmo pobre e obscura, feiosa e baixinha, que peço que me aceite como marido" Edward Rochester
"Faça minha felicidade que eu farei a sua". Edward Rochester.
"Se por um lado eu não posso contaminá-la, por outro, você pode me arejar" Edward Rochester
"Meus olhos se voltavam para ele, mesmo sem querer. As pálpebras se erguiam por conta própria, e as íris nele se fixavam. Eu olhava e sentia um prazer agudo em olhar - um prazer raro, embora doce-amargo. Precioso, mas com uma ponta de agonia. Um prazer como o que um homem morto de sede deve sentir ao perceber que o poço até o qual se arrastou tem a água envenenada, água que ele, mesmo sabendo disso, beberá de qualquer forma." Jane Eyre
"Em pleno verão, descera sobre ela o rigor do inverno" Jane Eyre
"Cada átomo de sua carne me é caro como se fosse parte do meu próprio corpo" Edward Rochester
"É melhor levar uma criatura ao desespero absoluto do que desobedecer meras leis humanas, cuja transgressão não faria mal a ninguém?" Edward Rochester
"- Não seria maldade me amar
- Mas obedecer-lhe seria".
"Leis e princípios não foram feitos para os tempos em que não há tentação"
" Mas creio que nenhum serviço degrada, desde que possa nos tornar melhores" - St. John
"Propensões e princípios devem ser conciliados, de alguma forma" St. John
"A lembrança dele continuava comigo, pois não era um vapor que o calor do sol pudesse dispersar, nem tampouco uma efigie de areia que os ventos fossem capaz de desfazer". Jane Eyre.
E a saga chega ao fim! Esse é o último post sobre o meu traje vitoriano.
Os acessórios eu fiz /comprei baseado no quadro que me inspirou, esse aqui:
Recorte do quadro The Great Exhibition,1851
Assim como fiz com o vestido, usei outras referências além do quadro escolhido. Pros acessórios eu apelei pra outros quadros da Victoria e reparei que eles se repetiam em vários deles. Separei os acessórios por "áreas" pra falar um pouco sobre eles.
Mãos:
Luvas da 25 de março, pulseira idem (o camafeu eu tirei de um colar e coloquei nele). Os babados eu costurei uma tira de tricoline na fita de cetim e prendi com colchetes (?). Bem simples.
Pescoço/ Decote:
Colar que poderia ser de cristal/diamante, mas no meu caso foi acrílico by 25 de março. O broche de camafeu eu já tinha. Queria ter usado um com alguma pedra (seria o ideal) mas eu não encontrei =/.
Cabeça:
Coroa: Eu até tinha encontrado uma mais próxima da dela, mas optei por essa mais simples por ser usável em lolita também. Achei que não valeria a pena pagar mais caro numa peça que seria usada apenas por algumas horas.
Cabelo: Inspirada novamente pelos quadros e pelo The Young Victoria (aliás, contei que a ideia de fazer esse traje surgiu desse filme?). Fiz um coque recheado com um rolinho, tranças, e usei 623675267 grampos pra prender o cabelo.
Penas: Era bem comum esses acessórios de pena, mas acabei não encontro penas/ plumas falsa pra vender então foi sem mesmo.
Brincos: Poderiam ser diamantes mas eram acrílico, novamente xD
Tronco:
Faixa. A Victoria aparecia diversas vezes com essa faixa, então achei imprescindível fazê-la também. É bem simples também, uma faixa , presa no ombro com esses prendedores de pérolas, e com um laço na ponta inferior, com um broche.
Braços: Essa braçadeira também aparece em vários quadros e é da Ordem da Jarreteira. Eu fiz com uma tira de tecido costurada, e costurei à mão uma tira de strass pra fazer esses detalhes. O nó e a fivela são só enfeites, porque ela é presa com um colchete.
Bem, é isso, finalmente terminei os posts sobre meu traje vitoriano, gostei bastante da experiência de pesquisar, fazer, e escrever sobre ele, com certeza me animou a fazer mais trajes de época pros próximos eventos.
Ps.: Dessa vez fico devendo as referências porque são muitos quadros que eu usei como referência, mas caso alguém queira saber de qual quadro tirei determinado recorte comenta e eu vejo se encontro, rs.
Tea Gowns foram bem populares no século XIX e trata-se de um vestido leve para ser usado em casa e sem corset, sendo muitas vezes acompanhando por uma peça que lembra um roupão. Quem quiser ler mais sobre pode conferir aqui.
Eu simplesmente adoro esse tipo de traje e sua praticidade e ando procurando inspirações pro meu próximo traje, então aqui vai os que eu mais gostei:
Liberty & Co. tea gown of figured silk twill, c. 188
Fala-se vestido mas na verdade são duas peças, o corpete (bodice) e a saia. A cintura é um pouco acima da cintura natural, os trajes de baile mostram os ombros, e pra mim é uma peça bem decotada, muito assanhada essas moças vitorianas, haha. O corpete é bem pontudo, o que me deu um certo medo porque a primeira vez que fui fazer uma peça assim não deu muito certo. Eu queria fazer uma réplica do quadro da Grande Exibição, mas pro molde novamente eu me baseei em peças de outras revivalistas, mas eu também analisei peças de museus e até mesmo o figurino de The Young Victoria.
Dona Josefa em 1852, imagem que usei como referência pro volume da saia
Corpete:
Foi o que me deu um bom trabalhinho, pois é uma peça que deve ser bem ajustada no corpo, além de também ser firme e diferente do que costumo fazer. Mas confesso que foi uma delícia pesquisar tudo e depois ir vendo o trabalho evoluir...
1850s evening dress.
The Young Victoria
Eu nunca lembro de tirar fotos do processo, mas do corpete eu tenho:
Fotos do molde/tecidos já cortados, em brim, cetim, e algodão
Depois de juntar as peças do forro, passei as costuras (note a diferença na primeira foto, onde a da direita está passada e a da esquerda não) e costurei o viés pra comportar as barbatanas.
Depois de costurar forro e parte exterior, juntei as duas peças e costurei a gola e barra juntas, pra depois acrescentar as rendas e viés.
Eu usei cetim (do avesso pra evitar o brilho excessivo), e pra deixar ele mais firme costurei junto com uma camada de brim. Ele possui forro e barbatanas de silicone pra manter ele estruturado. Finalizei ele com viés de cetim e rendas de tule. Nas costas ele é fechado com botões virados pro lado de dentro.
Eu primeiro fiz uma peça teste em cetim mesmo, pra testar a modelagem, mas fiquei insatisfeita e mudei tudo, haha depois do segundo fiz outra peça teste e aí sim passei pra peça final.
Não ficou exatamente como era pra ser mas eu gostei bastante do resultado.
Saia:
A saia possui aproximadamente 3m de largura, pra que ficasse bem cheia. Ela é presa no cós com pregas pequenas na parte de trás além das pregas há um franzido.
Resultado final:
Referências consultadas:
Corpete:
Melissa de Vargas, primeiramente, que me deu dicas de como fazer a construção do corpete. Pinterest Pintrest II
A evolução da Indumentária (livro), scan das páginas cedido por Sana Skull.
Bem, é isso, termina aqui mais uma parte dessa série de post, espero que tenham gostado ^^