quinta-feira, 30 de julho de 2015

Austenland: livro e filme

"As coisas não estão indo tão bem, e cada vez que os homens da sua vida te decepcionam, você deixa o Sr. Darcy entrar um pouquinho mais. Talvez você tenha chegado ao ponto de estar tão ligada à ideia daquele patife que não fica satisfeita com menos”



    Pense em uma mulher que já teve diversas frustrações no amor e relacionamentos, e que acaba desenvolvendo uma certa obsessão pela obra de Jane Austen, onde os romances sempre terminam em finais felizes e os homens são perfeitos cavalheiros. Agora tente imaginar que essa mesma mulher tem a chance de passar 3 semanas em um lugar onde ela pode viver todas as suas fantasias regenciais, acreditando que assim se livrará de sua obsessão. Essa é a premissa de Austenland, livro escrito por Shannon Hale. O livro, que chega ao Brasil como Austenlândia tem 240 páginas e é publicado pela editora Record.

    A personagem principal se chama Jane Heyes, uma mulher na casa dos 30 anos e que é o que chamam de solteirona convicta; acredita que está bem sozinha e assim pretende ficar. Acontece que o que poucos sabem é que ela é obcecada por Orgulho e Preconceito e mais especificamente a adaptação feita pela BBC em 1995, com Colin Firth. E essa obsessão faz com que ela se sinta cada vez mais frustrada em seus relacionamentos, já que nenhum homem que ela conhece chega aos pés do Mr. Darcy.

    Porém uma tia que perspicazmente percebeu o segredo de Jane dá a ela uma oportunidade única: passar 3 semanas em Austenland, uma mansão que recria os hábitos da regência (época de Jane Austen), com direito a roupas de época, passeios em jardins e bordados, e que conta com atores contratados para interpretarem os cavalheiros dos romances do início do século XIX. Apesar de inicialmente ficar em dúvida sobre ir ou não, Jane decide pela primeira opção ao perceber que essa pode ser a sua chance de se livrar de uma vez por todas dessa obsessão que está começando a atrapalhar sua vida.

   Quem sabe após viver um romance com algum ator ela não deixa de lado essa história, e passa a prestar mais atenção aos homens da vida real? Então, ao mesmo tempo em que acompanhamos Jane em sua aventura, ao longo do livro ela nos apresenta a todos os seus ex-namorados e porque cada um desses relacionamentos não deu certo.

Minha opinião sobre o livro (spoilers).

    O que eu achei bem interessante nesse livro é como ele foi desenvolvendo esse conceito de realidade versus ficção, já que no começo fica difícil até mesmo para nós leitores distinguir o que é real do que é atuação lá em Austenland. Também é divertido ir percebendo as semelhanças entre algumas partes da história e a obra de Jane Austen. Adorei poder ver o amadurecimento da personagem ao longo da história, que além de ir refletindo sobre sua paixão por um personagem fictício e as expectativas que ela gera, durante a sua estada em Austenland repensa  sua identidade. Algumas citações do livro exemplifica bem esse desenvolvimento:

“As coisas não estão indo tão bem, e cada vez que os homens da sua vida te decepcionam, você deixa o Sr. Darcy entrar um pouquinho mais. Talvez você tenha chegado ao ponto de estar tão ligada à ideia daquele patife que não fica satisfeita com menos” Molly, p. 13

“Não existe Sr. Darcy. Ou, mais precisamente: O Sr. Darcy seria na verdade um idiota chato e pomposo” Jane, p. 130

“Quero ser feliz. Antes eu queria o Sr. Darcy, pode rir de mim e quiser, ou a ideia dele. Alguém que me fizesse sentir o tempo todo como eu me sentia quando via aqueles filmes.” Jane, p.230

“ Srta Hayes, você parou para pensar que pode ter entendido tudo errado? Que na verdade você é a minha fantasia?” Henry Jenkins p.230
(fim dos spoilers)

Filme:



    O filme é divertidíssimo! Eles resolveram investir mais no tom de comédia do livro e acabaram exagerando na personalidade de alguns personagens, tornando-os caricatos. As mudanças que eles fizeram em relação ao livro pra mim só serviram para que a história fluísse menor. Existem só duas mudanças significativas, como (spoiler) o fato de no livro o Henry Noble ser um ator porém no filme ele ser apenas um professor de história, e também a obsessão de Jane, que no livro é escondida mas no filme escancarada (fim dos spoilers)

Citações do filme:

" É um hobby - Jane
  É bizarro - Molly"

"Eu estou solteira porque aparentemente os únicos homens que prestam são fictícios." Jane

(spoilers)
"Você não me irrita. Me deixa nervoso" Mr. Nobley
" Não importa se você é real ou não. Você foi perfeito" Jane
" Eu sou completamente louco por você" Henry Nobley.
(fim dos spoilers)

Concluindo:

    Em resumo: o livro é divertidíssimo, devorei ele em menos de dois dias, não consegui largar. Acho incrível como a autora trabalha a questão da expectativas que romances podem criar versus a realidade dos relacionamentos modernos de uma forma bem descontraída e cheia de humor. Semcontar que o livro/filme é um prato cheio pra quem gosta da obra da Jane Austen ou é revivalista. É o tipo de história que ao terminar você fica querendo mais.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Desafio de costura histórica: Corpete 1840s - Traje Jane Eyre

    Sim, eu pulei o desafio #5. Não deu tempo de fazer nada no tema  =/. Ainda estou pensando se ainda faço o tema do 5 (praticidade) ou se em algum mês faço dois itens do mesmo tema pra compensar. O tema do desafio #6 é 'Fora da sua zona de conforto', e o corpete do último traje que fiz se encaixa completamente nele.

Inspiração


    Utilizei como referência o figurino de Jane Eyre, sendo mais específica esse da imagem acima. Já queria fazer algo relacionado a Jane Eyre por conta do tema do evento (literatura do séc. XIX), mas o modelo do vestido decidi quando encontrei um tecido xadrez e vi que era parecido com um dos que vi no filme. A título de curiosidade, apesar de a história se passar na década de 1830, os figurinos são de 1840s, por escolha do figurinista.

Molde e corte



    Para o molde, usei como referência o do Patterns of Fashion e também dei uma olhada no The Cut of Women's Clothes. Mas no final das contas acabei traçando o meu do zero usando uma apostila que tenho, por conta da praticidade já que eu não teria tempo de fazer uma peça piloto.

    Em relação ao corte, foi um desafio conseguir reproduzir a forma como o xadrez era disposto nos moldes. Envolveu muita observação, marcas no molde e tecido e ainda assim tive uma peça cortada errada. O fato de o tecido acabar esticar não só no viés mas também na largura acabou dificultando um pouco mais.

Costura e acabamento



    A costura foi uma aventura, rs. Porque por não ter feito uma peça piloto então fui do molde direto pro tecido que eu iria usar, tendo que aprender a fazer os detalhes na hora. O corpete é forrado em tricoline e tem barbatanas de plástico. A gola e a parte de baixo finalizei com viés e nas costas ele é fechado com zíper mesmo. 


    Para fazer o franzido na parte da frente (shirring) eu usei fitas de cetim por dentro. Usei a mesma técnica nas mangas. Só consegui dar o efeito certo na terceira tentativa. Na primeira tentei franzir só com linha, como provavelmente era feito na época; na segunda tentei com elástico e só depois decidi fazer com as fitas de cetim.



     A saia já foi mais tranquila de fazer, porque eu já tinha feito algo semelhante. Ela é pregueada e fechada com colchetes. Também coloquei colchetes pra prender o corpete e a saia evitando que mostrasse o corset por baixo conforme eu me mexesse. 

Underwear

    Como esse traje é quase da mesma época de um dos meus trajes vitorianos, muita coisa que eu já tinha consegui reaproveitar. Por baixo do vestido eu usei chemise e drawers (já falei delas aqui), bumpad, anágua de cordão e anágua comum (post) e o corset optei por usar um de 1890, que mesmo sendo anacrônico iria dar a silhueta que eu precisava (também já falei dele aqui no blog).


    Portanto a única roupa de baixo que tive que fazer foi a chemisette (espécie de camisa curta pra ser usada por baixo do vestido). Foi uma peça super simples de fazer, ela é fechada na parte de baixo por fitas de viés costurado, e na gola com colchete. Como referência, além das imagens do filme usei também essa peça  e essa página do livro da Janet Arnold.

Resultado final


    Eu fiquei bem satisfeita! Gostei de como o caimento ficou... Fiquei aliviada porque eu mal tive tempo de provar o traje antes de usá-lo. Também consigo perceber como melhorei em relação ao traje da Victoria, que foi o primeiro que eu fiz. As únicas coisas que pretendo mudar com mais calma é o franzido das mangas, que pretendo fazer à mão e também o viés do corpete, que pretendo substituir por um do mesmo tecido que o resto do vestido. Ainda não sei se troco o zíper por botões ou se deixo assim mesmo. Preciso agradecer a Pauline dos Diários Anacrônicos que me ajudou a passar as pregas da saia, uma roupa bem passada é outro nível, rs. 

Ficha do Desafio de Costura Histórica: 



Número do desafio: #6: Fora da sua zona de conforto 
Tecido: lã sintética, tricoline, percal
Molde: Feito por mim.
Ano da peça: 1840-1850
Materiais utilizados: Viés de cetim, colchetes, botões, renda de tule, zíper, viés de algodão, barbatanas de plástico
Quão historicamente correto é?: 40%*
Total de horas para finalização: perdi a conta, rs, algo entre 10h e 15h, talvez
Quando utilizou pela primeira vez: 21 de junho, no 4º encontro vitoriano de Florianópolis
Custo total: cerca de R$65 (praticamente só gastei com o tecido xadrez)

*Como eu calculo a acuidade histórica: 25% aparência, 25% materiais, 25% técnicas, 25% modelagem
Referências:

Apostila de modelagem ETEC
Cinemattire 
Costumer's Guide
Historical Sewing
Miss Macraes's blog
Patterns of Fashion, Janet Arnold
The Cut of Women's Clothes, Norah Waugh


sábado, 13 de junho de 2015

Recriação Histórica: comportamento e etiqueta do século XIX em Our Deportment, parte I

Parte 1 : Comportamento - geral.


     Our Deportment foi um livro escrito por John H. Young. Foi publicado nos Estados Unidos em 1879 e a edição que eu li foi a de 1881. O livro apresenta diversas regras de etiqueta e conduta nos seguintes assuntos:  boas maneiras, apresentações, saudações, etiqueta em visitas, cartões, conversação, jantares, recepções, festas e  bailes, na rua e em espaços públicos, ao montar e dirigir, corte, casamento, vida doméstica, educação feminina, cartas,  regras gerais de conduta, nascimentos, funerais, negócios, vestimenta, higiene, jogos e linguagem das flores e pedras preciosas. 
     Ou seja, o livro abrange praticamente qualquer situação em que as pessoas precisem interagir e diz qual é a melhor forma de fazer isso.

     Esse livro é bem extenso (tem cerca de 430 páginas) e eu não o li de cabo à rabo, fui selecionando as partes que eu considerei mais relevantes para a minha persona e também o que poderia ser aplicado aos dias de hoje; sem a intenção de fazer um resumo de tudo o que é dito até porque o livro vai direto ao ponto, sem enrolações. Eu vou dividir as minhas anotações sobre esse livro em três partes: uma sobre comportamento, outra sobre encontros, e a última sobre vestimenta/aparência.

    Em Our Deporment essas dicas e regras não são dadas de uma forma tão imperial como eu coloquei aqui no texto. Adaptei a tradução dessa maneira e coloquei as informações em tópicos porque assim eu me lembraria do conceito mais facilmente. Espero que esse formato também seja melhor pra quem estiver lendo. 

Prefácio e introdução:

     "Nenhum assunto é mais importante para a maioria das pessoas que o conhecimento das regras, costumes e cerimônias da boa sociedade, que são comumente expressados através da palavra 'Etiqueta'. [...] Essas regras fazem a interação social algo mais agradável e facilita hospitalidades, quando todos os membros da sociedade consideram essas regras importantes e as seguem fielmente." A moral não pode ser desassociada das boas maneiras, que são adquiriadas por meio da educação e observação.

Capítulo II: Nossas boas maneiras

     As características mais marcantes de uma dama envolvem uma ascensão espiritual. 

- a paciência, generosidade e bondade são elementos que formam a virtude de uma mulher. 

Capítulo XXL: A educação superior* das mulheres



- Uma mulher deve ter conhecimentos em fisiologia, higiene e saúde para poder cuidar de seus filhos.
- É bom que a mulher tenha um bom senso de independência. Esse bom senso pode por exemplo ajudá-la para que possa gerir um negócio e suas finanças caso seja necessário.

Capítulo XXII: A Arte de escrever cartas 

- Nunca use abreviações.
- Os números, exceto os relacionados a datas, devem ser escritos por extenso.
- O papel utilizado deve ser branco e de boa qualidade.
- Na carta entre amigos, é de bom tom falar sobre assuntos em comum, e não se deve demorar muito pra respondê-la.


Capitulo XXIII: Regras gerais de conduta






- Em grupos, deve-se dar a mesma atenção para todos.
- Uma mulher sempre deve saber dançar, quer queira dançar em público ou não. Algum outro exercício para fortalecer os músculos também é recomendado.
- Uma mulher bem educada não se senta de pernas cruzadas.
- Trocadilhos são sempre considerados vulgar.
- A supressão da emoção é a marca das boas maneiras.
- Para ser um bom ouvinte é necessário não apenas ouvir, mas demonstrar interesse na conversa
- Ter uma aparência agradável e falar gentilmente é um dever que temos para com os outros.
- Nunca afete superioridade, trate as pessoas em uma posição social abaixo da sua com cortesia e igualdade.
- Nunca contradiga alguém diretamente. Diga: "Desculpe-me, mas eu acredito que você está enganado ou mal informado".
- Seja sempre pontual. Não desperdice o tempo dos outros.
- Nunca tenha conversas privadas com alguém enquanto se está em grupo, nem faça alusões a coisas que só vocês dois saibam.
- Ao entrar em uma sala, dê um breve cumprimento a todos antes de falar com as pessoas individualmente.
- É falta de cortesia ficar olhando no relógio na presença de alguém.
- Não leia na companhia de outras pessoas.
- Não fique tocando nos ornamentos e móveis da casa que você está visitando.
- Não dê as costas pra alguém com quem está falando sem pedir licença antes.


* N.T.: Woman's higher education, no original. Não sei se a tradução que escolhi é a melhor.

      Espero que tenham gostado da seleção que eu fiz das regras de etiqueta. Pra quem se interessar e quiser saber mais, o livro pode ser lido na íntegra aqui (edição de 1881, usada como referência para esse post) e ser baixado em pdf aqui (edição de 1882). Quem preferir também pode comprá-lo na Amazon (edição de 1879)


quinta-feira, 7 de maio de 2015

Persuasão: Livro e filme

"Não perdoara Anne Elliot. 
Ela o tinha feito sofrer; o deixara e o decepcionara. E pior, ela tinha demonstrado uma fraqueza de caráter ao fazê-lo que, para um temperamento confiante e decidido como o dele, era insuportável. Ela desistira dele para agradar a outros. Tinha sido o efeito de uma persuasão excessiva. Tinha sido fraqueza e timidez." 


Livro:

    O livro conta a história de Anne Elliot, a segunda filha de um baronete à beira da falência que é convencido a mudar-se para Bath para poder manter seu padrão de vida, alugando a casa em que moravam. Anne Elliot, ao invés de ir para Bath é convidada a passar algumas semanas com sua irmã mais nova, que mora em uma cidade vizinha.

    Acontece que a casa de Anne é alugada para o irmão do Capitão Wentworth, homem que 8 anos atrás pediu Anne em casamento mas que ela o recusou mesmo amando-o, porque foi persuadida por uma amiga da família chamada Lady Russel, que estava convencida de que Wentworth não era um bom partido por não ter dinheiro e boas relações.

    Não é imediatamente mas Wentworth e Anne acabam se encontrando novamente. Ele a trata sempre com educação porém com uma certa frieza, enquanto ela age da mesma forma mas em compensação podemos saber o que ela pensa, e como essa situação a deixa angustiada e triste. Já sobre Wentworth pouco sabemos, pois ele está sempre distante.

    No livro, cada personagem nos é apresentado de forma esmiuçada. Austen faz questão de gastar vários parágrafos descrevendo o caráter e personalidade de cada um, o que é ótimo! Um homem vaidoso, como Walter Elliot, uma mulher prática como Lady Russel, uma irmã egoísta, como Mary...são alguns dos julgamentos que ela faz dos personagens. 

    Anne é descrita como uma mulher de aparência comum, sem grandes atrativos, que acaba sendo deixada de lado pela sua própria família quando não pode ser útil (mas diga-se de passagem que na verdade Anne tenta sempre ser útil). É solitária mas ainda assim muito gentil com todos que se aproximam. Algo que a deixa melancólica é o fato de ela já estar passando da idade de casar (tem 27 anos), e estar sem perspectivas de encontrar um novo pretendente. 

    Gosto de Persuasão porque ele também parece ter um tom mais maduro, com uma porção maior de drama, em relação a outros livros da Jane Austen. É possível perceber o clima do livro pela citação que inicia esse post. Não é tão 'água com açúcar' como os outros que li dela (Northanger Abbey inclusive já comentei aqui no blog).

    Nele, Anne reflete bastante sobre a sua escolha e o fato de ter cedido à persuasão. O livro fala bastante sobre arrependimento, e sobre como Anne lamenta ter perdido o que acreditava ser a sua única oportunidade de ser feliz. É bem interessante ir notando o amadurecimento da personagem, que ocorre basicamente através de suas reflexões. 

    A reflexão que o livro traz em relação à persuasão (um tema recorrente na trama) por meio de diálogos dos personagens também é ótima. Jane Austen tem um talento especial para dizer muito da história apenas pelas conversas entre seus personagens. Para mim, a 'lição' do final é que você não precisa necessariamente se rebelar contra tudo e todos, mas que ter firmeza de caráter e manter-se fiel a seus sentimentos é essencial.

Citações do livro:

    "Agora, eram estranhos um ao outro; não, pior que estranhos, pois nunca poderiam se tornar próximos. Era um estranhamento perpétuo." 

    "Estou entre a agonia e a esperança"

    Persuasão foi publicado postumamente em 1817, sendo o último livro que Jane Austen deixou concluído. 


Filme de 1995


    Pra mim o destaque dessa adaptação é a fofura da atriz que interpreta a Anne. Ela representa bem a personagem como é descrita no livro, como uma mulher que já não é tão nova porém é bastante gentil e prestativa. 


   O figurino é bem caprichado e é possível ver vários spencers diferentes, acessórios para cabelo variado, etc... Fiquei com a impressão de que a Anne Elliot usava bastante tons claros, como azul, o que a deixava com um ar bem inocente. O filme no geral é bem fiel ao livro mas carece de emoção, não achei os atores carismáticos no geral.


Filme de 2007:


    O visual do filme em si é encantador, cheio de belas paisagens e cores vivas. Adorei a forma como a Anne olhava diretamente para a câmera algumas vezes enquanto ela refletia, e acredito que isso dava um ar bem profundo à cena apesar de ser intimidador no começo, rs. As cenas em que ela chorava também eram bem emocionantes. Mas confesso que por vezes me irritava a falta de reação da personagem, a atriz acabava ficando com cara de boba, coitada. Já a Lady Russel estava tão classuda! É bem como imaginei a personagem, como uma mulher mais velha mas e bem elegante. O ator que fez o Capitão Wentworth também foi uma boa escolha na minha opinião, conseguiu transmitir bem a personalidade mais reservada do personagem.  Além do mais, dá pra perceber que os atores que interpretam Anne e Wentworth tem mais 'química' que na versão anterior.


    Nessa versão existem algumas cenas acrescentadas que não estão no livro (como algumas em que o Capitão Wentworth conversa com seu amigo e a cena final), mas para mim essas mudanças foram pra melhor! Não tem como não se derreter com a última cena.
    O figurino desse filme é mais simples e eu diria até que, no caso das roupas da Anne, apagado. Creio que a intenção era fazer para ela um figurino (e penteados) mais básico mesmo como que para destacar a personalidade dela ao invés de sua aparência. Achei a trilha sonora bem bonita, muitas vezes era ela quem deixava algumas cenas angustiantes. Tem uma pequena amostra dela aqui.


    Sim, a versão de 2007 acabou sendo a minha favorita, rs. Achei o filme lindo, com bastante sentimento. Ainda assim acho que a de 1995 também tem seu charme, então, se você for ler o livro recomendo que veja as duas para comparar, ou então assista apenas a versão de 2007 caso seu interesse maior seja em filmes baseados na obra de Jane Austen. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Desafio de costura histórica: Spencer (1810-18)

Número do desafio: #4: Guerra e paz
Tecido: microgabardine, tricoline
Molde: Do Genesee Country Village Museum, adaptado
Ano da peça: 1810-1818
Materiais utilizados: Gabardine, tricoline, fita de algodão, colchetes, botões, guipir
Quão historicamente correto é?: 65%*
Total de horas para finalização: 15 horas, divididas em alguns dias
Quando utilizou pela primeira vez: 26 de abril, no picnic jane austen
Custo total: cerca de R$30

*Como eu calculo a acuidade histórica: 25% aparência, 25% materiais, 25% técnicas, 25% modelagem


Inspiração:


Principais referências que usei, que vão de 1807 até 1820


Não consigo pensar muito fora da caixinha, então quando vi que o tema era guerra e paz, logo pensei em fazer algo de inspiração militar e os spencer da regência cairiam bem nesse tema. O quadro acima foi minha principal inspiração para a cor, já que eu estava na dúvida se um azul desse tom poderia ser usado; e as peças de museu que estão na foto são as que eu mais me inspirei para definir os detalhes e acabamentos.

Desenho que fiz pra me guiar na hora de fazer o molde, junto dos materiais que escolhi usar


Molde e corte:

Molde, depois de pronto  e o mock-up que fiz a partir dele


Enquanto pesquisava modelos e moldes acabei encontrando esse aqui, que era exatamente o que eu queria fazer! Para escalar o molde para tamanho real achei mais fácil usar uma fita métrica em polegadas e copiar o molde do que fazer um monte de contas para converter polegada em centímetro. O fato de o molde ter gradação ajudou muito. Fiz um mock-up e tive dificuldades nessa parte não só para ir ajustando ao meu tamanho mas na própria modelagem. Pareciam que as peças do molde não encaixavam. Passei horas fazendo ajustes no molde e refazendo partes do mockup.


Costura e acabamentos:



Depois de ter feito o mockup a costura não foi muito complicada...só a gola (sou péssima em golas, rs) que me deu dor de cabeça; tive que refazer duas vezes e ainda assim não ficou bem do jeito que eu queria. Usei técnicas bem semelhantes as usadas na época, me baseando nas imagens do spencer original e nas instruções do molde. Os colchetes, fitas e essa parte da frente foram costuradas à mão inclusive. Só a parte de baixo, na junção do forro com a peça externa que eu resolvi fazer de um jeito que considero mais bonito e não como era feito.


Resultado:









Eu amei o resultado! Apesar de ainda conseguir enxergar alguns erros no caimento (no final das contas a peça não está bem ajustada no tórax) e na costura (principalmente na gola), eu gostei da aparência geral do spencer, principalmente nas costas. É uma peça que pretendo usar muitas vezes ainda, adoro essa versatilidade da regência, de poder montar vários conjuntos com poucas peças. Em breve posto fotos usando esse espencer ^^


Referências:

Estão no final do post, abaixo da versão em Inglês.

English version:
What the item is (and how it is a product of war or a lengthy period of peace: Regency spencer, inspired on military garments
The Challenge: #4: War and peace
Fabric: cotton and gabardine
Pattern: Genesee Country Village Museum, with a lot of changes
Year: 1800-1825
Notions: buttons, hook and eyes, cotton tape
How historically accurate is it? around 65% The notions, fabric and trimming aren't and it is partly machine sew, but it has also a lot of hand sewing and the overall looking is accurate.
Hours to complete: 15 hours, in a few days
First worn: April 26th
Total cost: circa $15


Inspiration:



My main inspiration for the color was that painting, while the museum's spencers inspired me on the details and construction. My main goal was to desing something military-ish and also fashionable.


My drawing


About the pattern and construction:



For this spencer I drafted the pattern based on an extant garment very similar to the one I designed (this one). After the mockup I made several changes so it would fit me and look like I wanted it to look. 



The sewing wasn't that challenging, I only had struggles with the collar (I'm not good on it). The front details (except the trimming) and fastening are made by hand.


Outcome and fitting:







I am really satisfied with the outcome of this project! It fit me well even if it's not a garment that comfy. In another time I'd make it more close to my body and a little more longer. I'm just in love with the back of this spencer.


Referências/sources:


domingo, 19 de abril de 2015

Desafio de costura histórica: Jarreteiras

The Toilette, François Boucher. Detalhe

      Decidi fazer um par de jarreteiras pra mim porque o tema de março do desafio de costura histórica era stashbusting (algo como 'eliminando o estoque'), e os tecidos e aviamentos que eu já tinha em casa não permitiam que eu fizesse algo muito mais elaborado. Como a peça é bem simples, resolvi trazer aqui pro blog em forma de tutorial, com algumas curiosidades sobre as jarreteiras.


História: 

A Ordem da Jarreteira foi criada na Inglaterra durante a era medieval, e seu lema pode ser visto no modelo acima. MFA

       Jarreteiras é uma peça equivalente às cinta-ligas modernas e em inglês são chamadas de garters. Eram tiras de tecido amarradas nas pernas afim de evitar que a meia escorregasse. Elas são usadas por homens desde a era medieval, mas aqui irei focar nas que eram usadas pelas mulheres do século XVIII. Nesse período, a perna passa a ser visto com uma parte do corpo feminino com bastante apelo sexual. Sendo assim, não é difícil encontrar pinturas e ilustrações desse período que retratem mulheres mostrando as meias e jarreteiras. Consequentemente, a jarreteira é uma peça que começa a ficar mais enfeitada.

Modelos e construção: 


Jarreteira francesa, MFA

       Os modelos das jarreteiras variavam bastante, algumas eram só uma fita de cetim (de seda), mas a maioria possuía uma tira de tecido na parte da frente que era bordado com lemas, motivos florais ou geométricos. O bordado algumas vezes era feito com fitas ou fio de prata. As jarreteiras possuíam entre 2,5cm a 5cm de largura. 


O lema diz "Pare aqui, você não pode ir mais longe"

     A partir de 1780, algumas passaram a ter uma espécie de mola na parte de trás, para garantir elasticidade, e ao invés de ser fechada com o laço possuía um fecho em metal. Essas molas continuaram a ser usadas até 1840.


Tutorial: 

      Fazer uma jarreteira pode ser muito simples! É possível costurar à mão inclusive.

    Existem duas opções para replicar uma jarreteira: Bordar algum motivo ou encontrar uma fita bordada. Eu optei pela segunda. Para tanto, é necessário que você observe bem os modelos originais do século XVIII (museus como V&A, Metropolitan e Fine Arts são ótimos sites pra começar a procurar, além disso nessas páginas é possível conferir as medidas e os materiais que foram usados na confecção delas). Os links que eu coloquei nas legendas das imagens e nas referências do post podem ser um ponto de partida para pesquisar modelos. 

Ainda encontram-se fitas bem semelhante a essa em armarinhos. MFA

Exemplo de motivo geométrico. METMuseum

      A fita que eu escolhi foi uma que estava aqui em casa há pelo menos 10 anos. Escolhi essa por ter um floral mais delicado e com ramos (que era comum no século XVIII), além do fato de ela lembrar um bordado feito à mão. A fita que eu usei para amarrar  na perna foi a de tafetá (de poliéster).

      Materiais: 
- Fita  de cetim bordada ou gorgurão 
- Fita de cetim ou tafetá


     Para costurar as fitas, eu optei pela costura francesa, para garantir um melhor acabamento. 







    1- Costure as fitas com o lado externo para cima e depois corte o excesso, deixando uma margem de 0,5cm. 
    2- Depois disso dobre do lado do avesso e costure para cobrir a margem de costura e depois costure novamente na extremidade.

    Caso a explicação e as fotos acima não sejam suficientes, essa ilustração também explica como fazer a costura francesa:


    3- Depois corte um 'triângulo' nas extremidades da fita que irão ser usadas para dar o laço. O corte assim na diagonal (viés) ajuda a evitar que a fita desfie.

Resultado: 



Eu gostei do resultado, considerando que é algo que fiz em menos de 10 minutos, rs. Mas ainda pretendo fazer uma jarreteira bordada, me apaixonei pela ideia de ter uma com algum lema!

Número do desafio: #3 Stashbusting
Tecido: nenhum, usei apenas fitas
Molde: nenhum
Ano da peça: 1700s
Materiais utilizados: Fita bordada, fita de tafetá
Quão historicamente correto é?: 30%*
Total de horas para finalização: menos de 10 minutos
Quando utilizou pela primeira vez: Ainda não usado.
Custo total: zero custo

*Como eu cálculo a acuidade histórica: 25% aparência, 25% materiais, 25% técnicas, 25% modelagem.

Referências: